Marcelo atuou contra o São Paulo um dia após o falecimento do pai — Foto: André Durão/GloboEsporte.com
Uma semana depois, minha irmã falou que meu pai tinha que operar a cabeça. Ocorreu tudo bem na operação, e minha irmã me disse que só dependia dele para ele reagir e ficar bem. Quando ela falou isso, fiquei preocupado. Meu pai não tinha força para lutar. Eu estava no Rio, em casa, minha ex-namorada me liga falando que ele faleceu. Desliguei sem acreditar. Quando minha tia me ligou eu estava a caminho do dentista, ela estava chorando e vi que era verdade.
No caminho liguei para o Barroca: "Não vou treinar amanhã, porque meu pai faleceu, mas não me tira do jogo, porque eu vou jogar". Ele mandou eu ficar à vontade, resolver tudo e disse que eu não precisava jogar. A caminho de Resende, sozinho, eu chorava o tempo todo pensando porque ele não foi ao médico, tinha feito plano de saúde para ele. Cheguei, a casa dele estava cheia, com minha avó chorando muito. Foi o quarto filho, de sete, que ela perdeu. Meu pai era muito novo, tinha 42 anos. Vou para Resende agora e ele não está lá, fica um vazio.
Entrei em campo no aquecimento já tentando me desligar. Quando subimos para começar o jogo, a torcida gritou o nome do meu pai. Ali não aguentei, chorei comigo mesmo. Em certos momentos do jogo eu não conseguia nem me concentrar, mas arrumava força de algum lugar para poder terminar a partida com ele me olhando lá de cima.
Eu sou um cara muito família. Minha família é tudo pra mim, porque só Deus, eu e eles sabemos as dificuldades que minha mãe teve para criar os cinco filhos. Tenho três irmãs e um irmão. Sempre lembro das coisas que minha mãe fez por mim, do que meus irmãos e eu passamos. Hoje o Botafogo me proporciona dar alegria a eles.
Vê-los sorrindo é melhor que ser convocado para a Seleção, melhor que ganhar uma Copa do Mundo.
Primeira coisa que fiz foi comprar um apartamento para mim em Resende. No mesmo andar, eu comprei um para minha mãe, que morava de aluguel. Ela ficou toda boba. Há uns três meses eu comprei outro, fui para Resende na casa da minha irmã. Parecia até um Saara, de tão quente. Ela morava de aluguel também. Aí falei que daria o apartamento para ela. Do meu lado, meu sobrinho fez um sinal de comemoração com o braço. Fingi que não vi, mas é isso que vale.
SonhoAs pessoas me zoam, mas eu sonho jogar no Chelsea. Sou apaixonado pelo Chelsea, e o campeonato inglês é muito forte. Sempre assisto a jogos. Quando o Chelsea foi campeão da Champions League em 2012 faltou eu soltar fogos. Saí correndo na rua.
Primeiro eu quero sair daqui retribuindo tudo que o Botafogo me deu. Se não fosse o Botafogo, hoje eu não estaria dando essa alegria para minha família, não estaria tendo visibilidade. Espero ser convocado para a Seleção também, já que o Botafogo é o clube que mais cedeu jogadores para a Seleção. E um dia chegar ao Chelsea, depois voltar e me aposentar no Botafogo. Só saio hoje se for algo bom para o Botafogo.
Vou trabalhar para esse ser o meu ano.
Pré-temporada em Domingos Martins-ESNão tem como desconcentrar aqui, não tem distração. Treinamos em dois períodos geralmente, aí já saímos cansados e só queremos dormir.
Valentim é um cara muito intenso, tanto que quando acaba os treinos ele está sempre correndo com a gente. Ele quer a posse de bola, verticalizar o jogo. Procura fazer com que a defesa esteja sempre preparada para a bola longa, para que tenhamos tempo para reagir, para chegar quando o adversário chega nas costas.
Acredito que esse ano será melhor que o ano passado, porque o Valentim está tendo tempo já na pré-temporada para colocar o jogo dele em prática.
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Marcelo durante pré-temporada do Botafogo em Domingos Martins-ES — Foto: Vitor Silva/Botafogo
Primeira pré-temporada com o status de titularSó o status, né? Se eu não continuar trabalhando firme como venho trabalhando nos últimos anos, eu vou ficar pra trás. É continuar focado para poder ter as oportunidades.
Por esse status de titular, a pressão é maior?Começo tranquilo. Todo jogador de futebol sofre pressão o ano todo. Tem jogos que vamos bem, tem jogos que vamos mal e aí a torcida já quer outro cara. Isso é normal.
O elenco está renovado, muitas caras novas chegando. Explica para eles: o que significa jogar no Botafogo?O Botafogo é um time que nos últimos anos vem penando com essa parte financeira, mas a gente sabe que dentro de campo isso é esquecido. Os caras que estão chegando vão encontrar um grupo bastante fechado, disposto a ganhar jogos e títulos. Deixamos eles à vontade, porque aqui a parceria é grande.
Já deu pra conhecer a galera. Estou tentando interagir com o Lecaros, porque o Leo Valencia era com quem eu mais conversava, então estou conversando com o Lecaros direto. Tenho um aplicativo que traduz no meu celular, me ajuda a falar espanhol, então chamo ele para o grupo, porque ele é mais tímido que eu. Ele fala rapidão, já não entendo, assim fica mais complicado (risos).
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Tatuagem de Marcelo em homenagem ao pai, que faleceu em setembro de 2019 — Foto: Emanuelle Ribeiro/GloboEsporte.com
Todos citam Cavalieri como referência. É para você também?Aprendi muito com o Cavalieri apesar de ser de outra posição. Fico perto dele: "Caraca, é o Cavalieri". Via ele muito pela televisão. Nem parece que tem a história que tem, muito humilde. O Gatito é o titular da posição hoje, mas o Cavalieri chega sempre antes para treinar. Ele inspira a gente para trabalhar no dia a dia. E ele gosta de Racionais, eu também. É muito legal. Um cara sensacional.
Gabriel conquistou espaço no Botafogo em 2019 e ficou muito querido pela torcida. Vai sentir falta?Sim. A amizade fica, Gabriel é um cara sensacional também. Gostava muito de jogar ao lado dele. Apesar de ser novo, tem uma experiência absurda. Ele foi o craque do time em 2019, difícil um jogador manter uma regularidade assim. A gente não via o Gabriel jogando mal, sempre ele estava bem ou regular. Ele vai alcançar uma Seleção da vida, ele é um monstro.
Lesão na coxa direita em 2019Coutinho (fisiologista do Botafogo) fala que eu tenho facilidade para machucar, porque sou fibra rápida. Às vezes até me poupa de treino para eu me recuperar mais rápido e evitar esse tipo de lesão. Ele me conhece bem. Como minha característica é a velocidade é mais fácil eu machucar a posterior ou ter algo muscular.
Mas estou zero bala.
Fonte: GE/Por Emanuelle Ribeiro — Domingos Martins, ES