sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Botafogo segura por 60 minutos, bate o Fla e chega à final da Copa Ipiranga


Clássico carioca teve poucas chances de gol na semifinal do torneio sub-20. Glorioso sai na frente e administra o resultado até os segundos finais da partida



Depois de vitória suada, elenco alvinegro faz festa no gramado na Copa Ipiranga sub-20 (Foto: Divulgação/Botafogo)

Clássico, semifinal e última competição do ano. O jogo tinha todos os ingredientes para pegar fogo, mas não foi o que aconteceu. Depois de 30 minutos mornos, o Botafogo abriu o placar com o zagueiro Kanu, completando cruzamento na área, e se segurou até o apito final. A vitória do Glorioso sobre o Flamengo garantiu a vaga na decisão da Copa Ipiranga sub-20, que ainda espera o resultado de Fluminense e São Paulo para conhecer o adversário na disputa do título.

O JOGO

​Mesmo sendo decisivo, a semifinal da Copa Ipiranga sub-20 começou sem graça. Flamengo e Botafogo trocavam passes atrás do meio de campo e não conseguiam criar perigo ao adversário. A principal arma dos dois times era a bola parada, seja em cobranças de falta ou escanteio. E foi assim que saiu o único gol da partida: aos 31 do primeiro tempo, Jordan lançou bola na área e Kanu mandou a bola pra dentro.

A partir daí, o Botafogo recuou. O Flamengo dominou a posse de bola e tomou conta do jogo, mas pouco acertou o gol. Patrick, o camisa 10, buscava o jogo no campo defensivo mas ficou longe de ter uma boa atuação. Aos 14 do segundo tempo, o técnico do Flamengo, Gilmar Popoca, tirou um volante, colocou um meia e lançou o time ao ataque.

Os últimos 30 minutos de partida foram ataque contra defesa. O ditado 'tanto bate até que fura', desta vez, não valeu. Diego, goleiro do Botafogo, além da dupla de zagueiros, foram perfeitos e afastaram todo o perigo. Nem mesmo no último lance, aos 49, quando o goleiro rubro-negro se juntou aos atacantes na área em cobrança de escanteio, o placar mudou. Vitória suada do Glorioso, que agora aguarda a definição de Fluminense e São Paulo para decidir o título da Copa Ipiranga Sub-20.


Fonte: Lancenet/João Mércio Gomes/Porto Alegre (RS)

"Amador" com orgulho, diretor do Bota destrincha reestruturação e planos


Com DNA na fundação do clube, Gustavo Noronha atua ativamente na contratação de estrangeiros, faz balanço positivo de apostas e vê Montillo perto: "Compraram a ideia"



Gustavo Noronha, o diretor jurídico do
Botafogo (Foto: Marcelo Baltar)
A paixão pelo Botafogo vem de berço, cresceu nas arquibancadas de Caio Martins e hoje, mais do que nunca, é coisa séria. “Amador” com orgulho, o advogado Gustavo Noronha, 40 anos, aparece pouco, mas tem voz ativa em General Severiano. O diretor jurídico vem há pouco mais de dois anos ajudando na reestruturação alvinegra.

No final de 2014, ao lado do presidente Carlos Eduardo Pereira, encontrou um clube rebaixado para Série B, atolado em dívidas, com quatro meses de salários atrasados e sem credibilidade no mercado. O jeito foi recomeçar praticamente do zero, sem abrir mão da política de pés no chão ou dar um passo maior que as pernas.

- A gente era chamado de amador, né? "Entraram os amadores". Com muito orgulho, que bom que nós somos amadores porque o estatuto do clube não permite que tenha um gestor remunerado, e nós somos de fato amadores. Mas com uma gestão profissional, uma forma de encarar a coisa como se administra uma empresa.

O recomeço foi lento, mas em dois anos apresentou resultados. De volta à elite do futebol brasileiro e com o passaporte carimbado para Libertadores 2017, o Botafogo resgatou a confiança de todos, especialmente de seu torcedor. E hoje, já pode sonhar com investimentos mais altos, como a possível contratação do cobiçado Walter Montillo.

Em pouco mais de uma hora de papo com o GloboEsporte.com em seu escritório de advocacia no Centro do Rio de Janeiro, Noronha falou sobre as dificuldades no início da atual gestão, sobre os obstáculos ao longo desses dois anos, as negociações frustradas e as que deram certo, o "achado" de Carli, medalhões oferecidos e especialmente sobre o planejamento para 2017.

REESTRUTURAÇÃO DO CLUBE
A gente começou, voltando lá em novembro e dezembro de 2014, quando a gente ganhou a eleição e pegou o clube um tanto destroçado. Rebaixado, salários atrasados há muitos meses, contratos sendo rompidos judicialmente... Então foi muito difícil aquele momento porque nós tínhamos poucos jogadores para contar, e os poucos não estavam motivados. Imagina, com três, quatro meses de salário atrasado ninguém se motiva mesmo. Havia uma incógnita da capacidade financeira para o ano seguinte, e o que a gente mais ouvia era: "Quando eu vou receber?" Lembro que na reapresentação do elenco em Várzea das Moças o Cidinho, que estava em recuperação, como eu o conhecia há mais tempo, ele vinha e falava: "Pô, doutor, quando eu vou receber". É chato ouvir isso. Eu sou empresário também, sou sócio de um escritório de advocacia grande, a gente tem cento e poucas pessoas aqui. Eu fico imaginando se eu atrasar o salário um dia se vou ter coragem de olhar para a cara das pessoas. Aí você assume uma gestão com o clube devendo quatro meses é difícil olhar para as pessoas. Chegava na roleta e tinha vergonha de passar pelo porteiro. Era um momento muito complicado.

Elenco do Botafogo em 2015, ano em que o clube disputou a Série B (Foto: Vitor Silva / SSpress / Botafogo)

HAVIA MUITA DESCONFIANÇA?
Muita. Segurança, motorista, departamento de futebol, todo mundo com salário atrasado. É muito desconfortável. Aí a gente foi, com muita ajuda do Carlos Alberto Torres, René Simões e do (Antônio) Lopes, que são pessoas fora de série e têm uma reputação no futebol. Eles entenderam o nosso momento, acreditaram na nossa credibilidade, empenharam também a palavra para trazermos jogadores, e a gente conseguiu apostar em alguns que estavam conosco que valia a pena continuar e acreditar no projeto. Tivemos uma desconfiança muito grande por parte da imprensa, da torcida em um primeiro momento, mas também tivemos apoio. Aquele sentimento de que pessoas vinham sem outros interesses vindo para ajudar de fato. É aquele negócio, no dia que eu não estiver aqui no escritório pode começar a desconfiar de mim: "Esse cara está tirando dinheiro da onde?" Ele exerce um cargo não remunerado no Botafogo e não está indo trabalhar, alguma coisa está errada. Então é uma ginástica danada para conciliar, tanto para mim, quanto para o Carlos Eduardo, o Cacá, as nossas atividades profissionais com o clube, onde a gente exerce uma função ali apaixonada e livre de outros interesses. A gente era chamado de amador, né? "Entraram os amadores". Com muito orgulho, que bom que nós somos amadores porque o estatuto do clube não permite que tenha um gestor remunerado, e nós somos de fato amadores. Mas com uma gestão profissional, uma forma de encarar a coisa como se administra uma empresa

MONTAGEM DO ELENCO
A gente foi colocando muito pé no chão na montagem desse elenco. Não dando nenhum passo que a gente não pudesse pagar. Primeiro grande passo foi a renovação com o Jefferson, que teve uma importância enorme na campanha na Série B. Isso passou também uma credibilidade para o mercado: Se o goleiro da seleção brasileira vai ficar é porque as pessoas são sérias e porque o projeto tem pé e cabeça. Isso deu para a gente um respaldo de começar o trabalho de maneira consistente. Aí trouxemos alguns bons jogadores, lembro bem a montagem desse elenco: Diego Jardel, Navarro, Renan Fonseca... Alguns deram muito certo, outros nem tanto, mas também foram importantes. Mas nós não tínhamos naquele momento a capacidade de fazer contratos muito longos. O Tomas Bastos por exemplo, quando veio o J. Malucelli falou: "Olha, é um ano, não dou nem um dia a mais". E a gente estava em uma situação muito frágil naquele momento. Não dava nem tempo, a gente tinha três semanas para montar um time. É diferente de hoje que a gente está planejando 2017 desde setembro, tem quatro meses para levar uma negociação. Faz uma proposta, espera um retorno. O pé no chão deu muito certo porque a gente vê aí que onde atrasa salário a coisa não vai. Esse ano já foi uma remontagem muito mais tranquila do que foi em 2015 porque já conseguiu alongar os contratos, pensar mais à frente. Alguns vieram ainda com contrato de um ano, como a maioria dos estrangeiros, mas os jogadores que a gente já imaginava na largada ou que o rendimento foi muito bom a gente já prolongou com multas altas. Carli ampliamos para três anos, Camilo até 2018... Isso dá um conforto para o clube. E a gente está acreditando que essa montagem para 2017 vai ser mais tranquila porque já temos uma espinha dorsal.

POLÍTICA DE CONTRATAÇÕES
Na nossa maneira de ver... Óbvio que isso às vezes muda (risos). Tudo na vida tem uma parcela gerenciável e uma não gerenciável. A não gerenciável não depende de você, então esquece. A gerenciável você vai tentando manejar. Dentro do que é gerenciável, a gente imagina fazer menos apostas, ou seja, trazer menor quantidade de jogadores, e mais contratações cirúrgicas, posições-chave e com mais chances de dar certo. Foi o caso do Roger, que a gente examinou há mais tempo, o Jair (Ventura) gosta, e a gente contratou. Vamos seguir essa linha de contratações cirúrgicas. Fizemos o mesmo com Gatito e João Paulo, por exemplo.

BALANÇO DOS GRINGOS
O balanço está mais ou menos dentro do esperado. Gostaríamos que a performance tivesse sido melhor da maior parte deles, mas, enfim, futebol e a vida são assim. Mas o Carli foi um acerto muito grande, jogador que já virou ídolo da torcida, está super bem. Alguns, como o caso do Salgueiro, não funcionaram, tirando aquele gol sobre o Flamengo que já pagou o ingresso. Acontece, não é matemática. Alguns foram apostas, caso do Lizio, jogador muito habilidoso, mas acho que não entrou no ritmo que o futebol brasileiro exige. Sensação que a gente teve é que ele não se adaptou. Fizemos algumas contratações no mercado nacional que também não deram certo. Fala-se muito dos estrangeiros, mas várias que a gente fez no mercado nacional também não deram certo. Casos do Maranhão, Marquinho, Aquino... Não renderam aqui. Dentro do volume que a gente contratou e os que deram certo, a proporção é quase a mesma (estrangeiros e brasileiros). Foi uma estratégia do momento, precisávamos de mais contratações e não tínhamos muito dinheiro. O mercado brasileiro é caro e competitivo demais. A gente viu agora, nós tentamos o Keno e perdemos para o Palmeiras. Por aí já dá para ver que não é fácil contratar no Brasil. Vamos tentar algumas no mercado nacional esse ano, estamos com algumas em andamento, mas não dá para descartar o mercado sul-americano, principalmente argentino, uruguaio, chileno... Estamos observando e vamos acabar trazendo alguém para tentar de novo.

O argentino Montillo, à direita, é um dos alvos do Botafogo para a temporada de 2017 (Foto: Divulgação / AFC)

COMO CHEGARAM AO NOME DO MONTILLO?

A gente mapeou alguns nomes que pudessem, na nossa maneira de ver, ajudar a assumir responsabilidade na temporada e ajudar na transição da defesa para o ataque. O meio precisava. Internamente, surgiu o nome do Montillo. Foi um dos primeiros nomes que apareceram.


AS INFORMAÇÕES SÃO QUE ELE ESTÁ MUITO PRÓXIMO...
Eu só gosto de dizer que está perto quando assina. As conversas são boas. Apresentamos a proposta e o projeto, eles compraram a ideia. Mas só falo que está certo com a assinatura.

O QUE MUDA PARA VOCÊS A CLASSIFICAÇÃO PARA A LIBERTADORES?
Acho que muda a percepção do mercado em relação ao Botafogo. O trabalho ser coroado por uma vaga é sempre uma alegria. Talvez mude o interesse dos jogadores pelo fato de estarmos na Libertadores. É um chamariz. Muda muito a confiança da torcida. Ela está mais confiante, o ano foi bom, isso pode repercutir no fato dela abraçar o clube. O Botafogo precisar ser abraçado pela torcida. Na verdade, todos os clubes. Isso é um passo adiante. A torcida abraçou o time com certa desconfiança em 2015, nesse ano também, mas acho que em 2017 vai abraçar o clube de uma maneira mais alegre. Isso é bom. Positividade atrai positividade. 
 
Gustavo Noronha (Foto: Vitor Silva / SSpress / Botafogo)

COMO FUNCIONA A PARCERIA COM GERARDO CANO?

Nós conhecemos o Gerardo quando ele nos apresentou o Navarro. Já existia uma relação com a gestão anterior, quando ele trouxe o Lodeiro. Temos uma boa relação, mas não chega a ser de fato uma parceria. É um agente que costuma cumprir a palavra. No futebol, isso não é muito comum. Alguns cumprem, e as coisas andam melhor. Tratamos com outros empresários sérios. A tendência é ter relações de vida longa com pessoas sérias. Aqui no Botafogo temos uma grande preocupação com a seriedade das pessoas. Pisou na bola uma vez, não pisa mais no clube. Jogamos muito aberto.

O SUCESSO DO NAVARRO, QUE É DO GERARDO, INFLUENCIOU NESSA APOSTA NOS GRINGOS?
Funcionou muito bem o Navarro, né? Uma pena, perdemos para o mercado mexicano, ele foi ganhar lá três vezes mais do que ganhava aqui. Não deu para segurar.

COMO FUNCIONA A CONTRATAÇÃO DE GRINGOS?

Não tem uma semana que passe que nosso departamento de análise, desempenho e inteligência não examine um jogador sul-americano. Procedimento é sempre o mesmo: a gente recebe uma indicação, ora já estamos procurando, ora um empresário ou conselheiro indicou. Ou até mesmo torcedor que indicou (risos), acontece também. A gente vai: "Esse aí está valendo a pena, vamos olhar". Aí nosso departamento de inteligência busca as informações. Usamos um sistema avançado onde os caras monitoram o jogador, a posição dele dentro do campo, não só no scout, mas veem no 1 a 1 ofensivo, no 1 a 1 defensivo. Só lances dele, aí fazem um relatório, não é conclusivo, contrata ou não, isso depende de outras circunstâncias, mas mostra se as características dele que foram "vendidas" ao clube se confirmam e tal. Em cima disso a gente tenta errar o menos possível, mas erros sempre acontecem.

QUEM DECIDE A CONTRATAÇÃO?
É uma decisão colegiada com o presidente, o Cacá, o Lopes, eu, o Luis Fernando que é o vice-presidente executivo, o Jair e a turma da análise de desempenho. A gente sempre inclui o profissional que fez o desempenho para ele ser ouvido também.

MAS VOCÊ TEM PAPEL MAIS DIRETO NA CONTRATAÇÃO DE ESTRANGEIROS?
Como eu trabalho muito com gente internacional aqui no escritório, dou muita palestra nesses países. Argentina, Uruguai... Mas na minha área, que é a tributária, advocacia de impostos. Eu falo espanhol, isso facilita um pouco. Talvez só por essa razão eu acabo me envolvendo um pouco mais. Quando liga um empresário para o Lopes falando espanhol, ele: "Gustavo, vem cá conversar com ele" (risos). Mas é muito mais casual do que outra coisa. No procedimento padrão, o Lopes faz a negociação, e a coisa chega para mim em uma parte mais jurídica, de elaboração de contrato. Às vezes, a gente divide um pouco a atribuição de negociação em si, mas normalmente eu vejo mais o contrato.

Gustavo Noronha foi um dos responsáveis
pela chegada de Carli (Foto: Botafogo)
O "ACHADO" DO CARLI
O Carli foi indicação de um conselheiro nosso, do Rodrigo Farreh, que acompanha muito o mercado argentino. Nem sei por que razão, mas ele assina o Campeonato Argentino, assiste a todos os jogos, e de vez em quando ele dá uma assim: "Gustavo, vê o fulano de tal". Foi assim com o Carli: "Olha, tem um zagueiro lá no Quilmes que já acompanho há muitos anos e é bom jogador". Tinha tido uma contusão, ficou um tempo no banco, mas foi titular a vida inteira e tal. Mandamos para o analista de desempenho, e ele aprovou. Só que o Carli não tinha sido oferecido para a gente, diferente dos outros. A gente entrou em contato com um agente que conhece muito o mercado sul-americano, foi quem fez o contato com ele, e daí a coisa andou. Teve um problema do Quilmes lá com a transferência, tinha uma liminar contra o clube impedindo qualquer transferência internacional. Eles estão até hoje em uma crise, mas naquela ocasião estavam com vários credores na praça. Um deles conseguiu uma liminar que a AFA foi intimada por um juiz. Ele já estava aqui (risos) foi um momento difícil, tivemos que contratar um advogado lá para entender a situação e discutir com a AFA, graças a Deus as coisas correram bem.

EXISTEM NOVOS "CARLIS" A SEREM DESCOBERTOS?
(Risos) Sem dúvida, sem dúvida.

VOCÊS CHEGAM A IR VER OS GRINGOS IN LOCO?

Em alguns casos sim, a gente manda o analista para ir ver o jogo. Mas hoje a informação... Esse programa pega as informações das Séries A, B e C do Brasileiro, do Argentino... Às vezes a gente precisa ir muito mais ara conversar com as pessoas, depende se tem acesso ao clube, mas só para ver o jogo em si não tem muita necessidade. 

Esteban Cambiasso Leicester City
(Foto: Getty Images)
É POSSÍVEL TER UMA NOVA ESTRELA COMO O SEEDORF?
Talvez. A gente trabalha com esse cenário, mas com pé no chão. Depende muito da negociação, da aposta do jogador... Tem um projeto do clube para o jogador, e do jogador para o clube também. A gente não trabalha com a hipótese de trazer um cara que custe R$ 1 milhão por mês e que não saiba como pagar. Mas a gente trabalha com o cenário de ter um jogador mais tarimbado, digamos assim, que possa atrair a torcida e tal, e que ele aposte no projeto do Botafogo. Em algumas conversas que temos tido com bons jogadores eles têm perguntado isso: "Mas quais são os planos para o jogador?" Acho que hoje tem essa consciência em alguns empresários, e de alguns jogadores, de como ele vai encaixar no elenco. Por exemplo: a gente hoje precisa de um bom jogador de meio campo para conversar com o Camilo, os nossos esquemas sobrecarregam o Camilo um pouco porque a gente acaba tendo volantes, atacantes e ele fica ali no meio um tanto sozinho. Alguns nomes que estamos vendo estão enxergando isso. Sem fazer loucura, pés no chão, mas tentando mostrar um projeto. Essa frase ficou meio que com o (Vanderlei) Luxemburgo porque tudo era "projeto", "projeto" (risos). Mas é um pouco por aí mesmo. Primeiro mostrar a nova realidade do clube, que a gente honra com o que combina, e pensar em menos quantidade e mais qualidade.

POR QUÊ RECUSARAM O CAMBIASSO?
No final a gente achou que a aposta era muito cara para o nosso momento. Jogador de idade mais avançada... É difícil fazer esse tipo de balança, né? Achamos que era um risco muito alto para o tamanho da grana que iríamos ter que gastar.

E O BARCOS?
Barcos a gente tentou no passado. Tentamos o Viatri também, não deu certo.

O RAUL MEIRELES FOI OFERECIDO TAMBÉM?

Não. Tem muita coisa que aparece que a gente acha que alguém tentou plantar.

JOGADORES QUE VOLTAM DE EMPRÉSTIMO SERÃO APROVEITADOS?
Estão no elenco, né? A gente vai ter que avaliar, saber se reempresta... Vai depender um pouco da montagem do elenco, posição que estiver carente... Vão ser reavaliados.

PRIORIDADES
Acho que um 10 e um 9 a gente vai precisar. Precisa de mais um atacante ali, talvez um que jogue pelos lados... Algumas coisas estão um pouco incertas ainda, temos que ver se o Neílton fica, a lateral esquerda é um problema porque a gente não tem ainda definida, o Victor (Luís) talvez volte para o Palmeiras, mas a gente está tentando manter.

Ao mesmo tempo é um sonho e um pesadelo. Quando a gente assumiu a gestão, sem brincadeira, não é politicagem ou coisa do gênero, mas eu vi uma criança na rua com a camisa do Botafogo e senti um peso nas costas. Botafogo na Segunda Divisão, a gente naquele momento meio que sem saber para onde ir, não tinha dinheiro, o clube estava devendo todo mundo, cheio de penhora, Ato Trabalhista suspenso... Passava por ela na rua, obviamente ela não sabia quem eu era, até hoje não sabem porque minha função é muito mais interna, e eu ficava pensando assim: "Olha o tamanho da responsabilidade". Esse é o pesadelo
Gustavo Noronha

PAPEL DO ANTÔNIO LOPES
É um cara sensacional. Super correto, tem uma presença de vestiário importante, tem uma história que fala por ele. Um profissional que já viu um pouco de tudo. Em vários momentos difíceis ele foi muito importante. Você vê a importância do profissional quando a coisa vai mal. É difícil você distinguir o bom para o mau profissional quando está tudo bem. Aqueles momentos lá em que estávamos mal no Brasileiro, fizemos aquela mini-temporada lá em Várzea (das Moças). Como eu moro em Niterói, ia muito lá. Era meu caminho do trabalho. Aí ficava o Lopes naquela salinha de vidro em cima, naquele campo lá de trás. Eu entrava: "E aí, Lopes, como que está?". Ele olhava: "Tudo certo. Fica tranquilo que vai dar certo". Ou não, aí falava: "Momento precisando dar uma chacoalhada, mas se fizer isso assim, assim, assado vai funcionar". A experiência de um cara que já viu muita coisa, indo bem ou mal, é muito importante. Eu não sou um cara do futebol, sou advogado. Então você precisa ter os profissionais e colher informações daqui e dali para tomar decisão. Mesma coisa com o Cacá, o presidente... A gente não é do futebol, embora sejamos fanáticos e acompanhamos futebol a vida inteira. Tem coisas que não dá para errar, você sabe se vai ou não. Outra coisa é o clima, do trabalho render ou não... A importância do Lopes é enorme, e às vezes a torcida não vê mesmo porque é um trabalho muito silencioso.

ASSIM COMO O DE VOCÊS...

Também, muito silencioso. Quando dá certo é sorte, quando dá errado a gente é incompetente (risos). "Botafogo deu sorte", é o que a gente mais tem ouvido.

COMO INGRESSOU NA POLÍTICA DO BOTAFOGO?

Eu sou sócio do Botafogo desde os 9 anos. Mas eu não era politicamente ativo, sempre trabalhei muito. Aí em 2003, o Botafogo estava na Segunda Divisão, e eu comprei uma cadeira no Caio Martins para a temporada, na gestão do Bebeto (de Freitas). Ele fez um plano de sócio-torcedor e tinha uma cadeira VIP que era permanente. Meu nome está até hoje lá, fui esses dias em um jogo do sub-20 e vi que os decalques daquela época ficaram nas cadeiras. Os meus vizinhos de cadeira na época eram todos conselheiros, envolvidos com política. Eu era um torcedor comum, apaixonado, que ia a todos os jogos, até hoje vou a quase todos. E esses caras depois começaram a falar: "Você é um cara que devia estar na política do Botafogo, gente nova, sangue novo, são sempre os mesmos". Essa história ficou na minha cabeça, realmente eu podia tentar ajudar. Esse grupo depois se uniu e disputou a eleição, a gente perdeu contra o Bebeto na ocasião.

COMO CHEGOU A DIRETOR JURÍDICO DO CLUBE?
Surgiu a história do Maurício (Assumpção). Ele nem seria o candidato, seria o Mantuano, mas por algumas conjunturas políticas apareceu o nome do Maurício. Ele meio que caiu de para-quedas. Para ter ideia, essa eleição foi em 2008 e eu conhecia a maioria das pessoas do grupo desde 2003, e o Maurício eu conhecia há um mês. Eu era um nome para ser o vice jurídico do Maurício porque teve uma história na época do Bebeto em que ele colocou para votar um monte de sócios com menos um ano de associação. O Estatuto do Botafogo só deixa votar se tiver um ano. Eram uns 150, 200 sócios e eles não puderam votar porque eu entrei com uma ação e consegui uma liminar. Talvez um pouco motivado por essa confusão toda me indicaram para vice jurídico e aceitei. Só que no primeiro ano a gente teve um racha na administração, brigou com o Maurício, e eu renunciei. As divergências eram muito profundas, e eu fui ser oposição. Perdemos a eleição quando o Maurício foi reeleito. Pelo Estatuto, a chapa que perde elege 14 conselheiros para o Conselho Deliberativo, e eu fui um desses. Fizemos uma oposição bem presente, acompanhamos os principais desmandos que acabaram desaguando nessa confusão toda que aconteceu. E a gente estava avisando ó (estala os dedos), há muito tempo. E quando a gente ganhou essa eleição, eu estava em uma fase de carreira aqui no escritório que não conseguiria o tempo que o Botafogo merece para ocupar o cargo de vice jurídico. O Carlos Eduardo perguntou onde eu poderia ajudar. Falei: "Acho que posso ajudar no futebol porque já fui vice jurídico, conheço como funciona o regime dos contratos, me dou muito bem com o Aníbal (Rouxinol, advogado do clube)"... Eu acho que posso fazer isso, comandar o departamento jurídico dentro do futebol cuidando da parte disciplinar, que são os tribunais esportivos, a gente discute a estratégia e como fazer, e cuidar dos contratos com os jogadores. Revisar os contratos, tomar cuidado com certas questões... Ele concordou, achou uma ótima ideia, e estamos aí tentando ajudar.

Estátua de Jairzinho no escritório de Gustavo Noronha Botafogo (Foto: Marcelo Baltar)

PLANOS PARA O FUTURO NO BOTAFOGO

Penso em continuar ajudando. Nunca fui um cara ligado a cargo. Sou plenamente realizado na vida pessoal e profissional, não sou do tipo que precisa de cargo para se achar importante. Tanto que não tive nenhuma dúvida quando entreguei a renúncia ao Maurício, e nem tive vaidade quando o Carlos Eduardo perguntou o que queria ser. Falei: "Carlos, não quero ser nada, quero te ajudar. Não seu preocupe se você vai me dar um cargo de vice-presidente, de diretor, de servente..." Não faço planos. Muita gente pergunta se eu almejo ser presidente do Botafogo um dia. É aquele negócio, um dia a gente sempre acha que é uma possibilidade (risos), de tentar ajudar mais, mas hoje, realmente, com o volume de trabalho que tenho aqui não tenho condição. Minha mulher, minha filha, meus sócios, todos me matam (risos). Para o futuro, a médio, longo prazo, não descartaria a possibilidade.

TRABALHO DOS SONHOS...
Ao mesmo tempo é um sonho e um pesadelo. Quando a gente assumiu a gestão, sem brincadeira, não é politicagem ou coisa do gênero, mas eu vi uma criança na rua com a camisa do Botafogo e senti um peso nas costas. Botafogo na Segunda Divisão, a gente naquele momento meio que sem saber para onde ir, não tinha dinheiro, o clube estava devendo todo mundo, cheio de penhora, Ato Trabalhista suspenso... Passava por ela na rua, obviamente ela não sabia quem eu era, até hoje não sabem porque minha função é muito mais interna, e eu ficava pensando assim: "Olha o tamanho da responsabilidade". Esse é o pesadelo. A parte boa é você estar em contato, podendo ajudar, quando funciona é muito prazeroso. O Carli, por exemplo: briguei para trazer ele, deu aquela m**** na Argentina, falei que ia segurar aquele negócio. E o cara dá certo, torcida adora, performando super bem. Aí é o lado legal. Tem uma frase que o (Manoel) Renha (gerente geral da base) usou uma vez que é muito legal. Quando fomos campeões brasileiros sub-20, liguei para dar os parabéns e ele disse: "Gustavo, em um país onde tem tanta gente fazendo tanta coisa errada, a gente fazer as coisas de maneira séria, honesta, competente não pode dar errado. Isso ficou na minha cabeça. Estamos fazendo tudo com muito carinho, sem nenhum outro interesse que não seja do Botafogo. Espero que o Cara lá em cima olhe para essa turma e diga: "Esses não merecem dar errado" (risos).

PAIXÃO PELO BOTAFOGO
De família, todo mundo. O meu pai, avô, bisavô... Tem até uma história curiosa. O Botafogo foi fundado por garotos que estudavam no Colégio Alfredo Gomes, e quando eles estavam combinando a fundação do Botafogo, trocavam bilhetes marcando encontros e tal, durante as aulas. Em um determinado momento, os livros do Botafogo contam esse episódio, um professor de álgebra interceptou um desses bilhetes. E esse professor era irmão do meu bisavô (risos). Ele (Júlio Cesar de Noronha) era General do Exército Brasileiro e foi dar aula depois que passou para a reserva. Aí tem a história e tem a lenda, né? Dizem que ele deu uma dura num primeiro momento, mas depois incentivou, apoiou, achou legal. Enfim, a família sempre esteve ligada ao clube desde o início. Meu avô era um torcedor fanático, de ouvir todos os jogos em um radinho verde de pilha. Meu pai hoje ajuda a gente na diretoria administrativa do clube e sempre foi fanático. Todos os meus aniversários sempre foram do Botafogo. Até hoje tem hino. Meu apelido nas peladas sempre foi “Botafogo” ou “Fogão”, porque em regra sempre jogo uniformizado. Eu tive uma infância em um período de jejum, então fui campeão pela primeira vez com 13 anos, aquele título sobre o Flamengo em 89. Estou com 40 agora. Mas até os 13 foi complicado. E lá em casa tinha fita cassete do Garrincha, Nilton Santos... Era a forma de cultivar a grandeza do clube, além, claro, de ir a todos os jogos que podíamos. Uma época muito complicada, em muito sustentada pela rivalidade nos clássicos, onde éramos competitivos até nos dias de chumbo.


Fonte: GE/Por Marcelo Baltar e Thiago Lima/Rio de Janeiro