sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Entrevistão: reforços, política, vida... Carlos Eduardo Pereira abre o coração



Presidente do Botafogo faz balanço da gestão, projeta Libertadores, renovação com Montillo, Nilton Santos e admite: "Coisas foram melhores do que a gente imaginava"



Carlos Eduardo Pereira virou o maior símbolo da
 reestruturação do Botafogo (Foto: Marcelo Baltar)
A quarta-feira foi cansativa, mas valeu a pena. Em pleno verão carioca, com sensação térmica acima de 40º, o Botafogo abriu as portas para a torcida receber Montillo, na entrada do Salão Nobre de General Severiano. Horas após exibir talvez o maior troféu de sua gestão, no andar acima, Carlos Eduardo Pereira recebeu a reportagem do GloboEsporte.com em seu gabinete, na sede. Um escritório simples, ao lado da sala de troféus, mas palco de decisões importantes, que mudaram o rumo do Alvinegro nos últimos dois anos.


A expressão era de cansaço, mas o sorriso, leve. A serenidade é de quem, entre erros e acertos, vem aos poucos recolocando o Botafogo em seu devido lugar. Hoje o cenário é bem diferente daquele encontrado no início de sua gestão, em novembro de 2014. O time está na Libertadores, os salários em dia e a contratação de Montillo encheu os alvinegros de autoestima. Tanto que o argentino, em sua apresentação, teve que dividir um pouco das atenções com o presidente. Carlos Eduardo foi parado dezenas de vezes para fotos e selfies com torcedores.


– Até fico constrangido quando as pessoas pedem para tirar fotos comigo. Eu não sou nada. Sou apenas um coordenador das atividades. As estrelas são os jogadores, nossos ídolos. Mas faz parte desse processo de resgate da nossa autoestima. Desde o primeiro momento procuramos por isso. Fizemos isso pelo lado administrativo, mas em algum momento você tem que arriscar alguma coisa. É claro que dentro de um parâmetro para mexer com as pessoas no campo esportivo. E realmente conseguimos mexer com a torcida.

Até fico constrangido quando as pessoas pedem para tirar fotos comigo. Eu não sou nada. Sou apenas um coordenador das atividades. As estrelas são os jogadores, nossos ídolos. Mas faz parte desse processo de resgate da nossa autoestima. Fizemos isso pelo lado administrativo, mas em algum momento você tem que arriscar alguma coisa. E realmente conseguimos mexer com a torcida"
Carlos Eduardo Pereira,
presidente do Botafogo


Montillo, aliás, tomou conta de boa parte do bate papo que durou cerca de 1h20, na última quarta-feira. Carlos Eduardo Pereira explicou o motivo do contrato, em um primeiro momento, ser de apenas um ano. Fato muito questionado por torcedores nas redes sociais.


– Adaptação. O Montillo deixou claro que a família ocupa uma posição central na vida dele. Ele tem dois filhos, esposa... Apesar de o Rio de Janeiro ser uma cidade muito hospitaleira, sempre tem uma adaptação, especialmente para crianças pequenas. Ele é extremamente profissional. Esperamos que ocorra essa adaptação para que ele se sinta bem e depois a gente estenda esse vínculo – afirmou o dirigente, que participa ativamente das negociações e, durante a entrevista, até recebeu uma ligação onde bateu o martelo sobre a desistência por Alemão.


Na conversa com o GloboEsporte.com, Carlos Eduardo Pereira também falou sobre seus pouco mais de dois anos à frente do Botafogo. Não descartou tentar a reeleição no fim do ano, apesar de ser contra a ideia. Atacou a "desunião" do Flamengo. Falou sobre a nova folha salarial do futebol. Defendeu o tão criticado gerente Antônio Lopes – "É uma voz de quem já viu acontecer de tudo no futebol". E suspirou ao reconhecer as dificuldades de contratar um atacante de lado, pedido especial de Jair Ventura para a Libertadores.


Confira a entrevista completa com o presidente alvinegro:

GloboEsporte.com: qual o balanço até este último ano de gestão? Foi mais difícil do que pensou?

Carlos Eduardo Pereira: Foi bem mais difícil. Em 2011, quando concorremos pela primeira vez, a tempestade estava no horizonte. Sabíamos que ela estava vindo, mas poderíamos desviar dela de alguma maneira. Em 2014, a gente já estava dentro da tempestade. Apareceram coisas que de fora não se vê. Ganhou uma dimensão muito maior do que poderíamos imaginar. Tínhamos seis jogadores quando eu cheguei. Montamos uma equipe que ganhou a Taça Guanabara, o Brasileiro (Série B), subimos, reformulamos tudo outra vez... O time da Série B não poderia jogar o Brasileiro. Fizemos um primeiro turno complicado, os reforços vieram. A questão do tempo é muito complicada no futebol. Entre você querer e você conseguir, tem uma longa distância.


Depois, perdemos o Ricardo Gomes. Inicialmente achamos que seria um problema muito difícil de ser superado. Mas conseguimos superar com a força do Jair e com a presença do (Antônio) Lopes, que é um cara vitorioso e já ganhou Copa do Mundo. Tudo o que o Lopes disputou ele ganhou. Ele é muito importante nesses momentos de transição. É uma voz de quem já viu acontecer de tudo no futebol. Eu brinco com ele: "Lopes, o abacaxi é esse". Ele geralmente já passou por isso. As coisas foram melhores do que a gente imaginava.


Subimos da Sério B para a Pré-Libertadores. O resultado, sem dúvida, é muito bom. Agora não vamos desfazer do time. Hoje a gente não precisa mais. Agora o trabalho é manter a equipe, receber os reforços e receber os garotos campeões brasileiros (sub-20). Felizmente, é um quadro bem diferente. Mas os desafio também são muito grandes. Temos esse problema de datas por conta da Libertadores, mas é um doce problema. Um problema que a gente sempre sonhou.

Carlos Eduardo Pereira apresentou a sala de troféus do Botafogo a Montillo (Foto:Alexandre Loureiro/ SSPress/ Botafogo)

Até o caminho considerado o mais difícil na Libertadores?

No sorteio, algumas pessoas reclamaram. Mas eu não tenho do que reclamar. O Botafogo estreia em casa, em um grande clássico sul-americano. Ótimo. Vamos para cima. Libertadores é isso. Quem fazer parte da brincadeira? A brincadeira é essa, não tem jeito. São times de camisa, times de torcida. Nós temos que estar preparados para isso. Nós temos torcida, nós temos camisa, nós temos história, nós temos estádio. Um estádio que está motivando muito a torcida com essa customização. Isso será uma grande atração.


Vai ser time misto no Carioca?

O time principal deve estrear no dia 25 contra o Madureira. No dia 28, não acredito no time principal. Sem dúvida, o time misto é uma necessidade. Vai pesar o estado físico dos jogadores. Como eles vão reagir à pré-temporada. A fisiologia vai avaliar, sempre pensando em ter a força máxima no jogo contra o Colo-Colo.


O Nilton Santos está preparado para receber a Libertadores?

A quantidade de pessoas que estão buscando informações, se mobilizando para vir ao Rio de Janeiro, em caravanas, para o dia 1º de fevereiro, é enorme. Desde a semana passada estamos debruçadas no sistema de catraca e venda de ingressos. Sabemos que não podemos cometer erros nesse jogo. No dia 25 (Brasil x Colômbia), a CBF vai operar o estádio, e vamos observar. O Anderson Simões (vice de estádio) está com a nossa equipe dando suporte. No dia 28, pelo Carioca, faremos uma operação em um jogo de torcida única, contra o adversário que vier da seletiva. Mas contra o Colo-Colo não temos direito a cometer falha alguma. O sócio-torcedor tem que entrar sem problema com sua carteira, o torcedor com seu ingresso... É uma operação desafiadora, mas que já estamos debruçados nela para evitar qualquer margem de erro.

Quando começa a venda de ingressos?

Assim que a gente fechar a questão de um modelo de catraca vamos começar. Os valores já estão mais ou menos definidos. Também queremos acertar um trabalho de reciprocidade com o Colo-Colo. Estive com um diretor do Colo-Colo em Assumpção. Não é que vamos entender o tapete para eles, mas quero que eles tenham uma boa acolhida aqui, para que a gente possa ter uma boa acolhida em Santiago. Vamos garantir um certo número de ingressos, uma recepção adequada para a torcida e diretoria deles. E ingressos com preços corretos.


E qual vai ser a logística para o jogo no Chile?

A ideia é chegar uns dois ou três dias antes em Santiago. O fato de ser uma grande capital ajuda. Você tem voo direito, isso facilita. Mesmo assim são praticamente quatro horas de voo. Você podendo ir um pouco antes vale a pena.


A customização do Nilton Santos está ficando bonita...

Não estamos vendendo um sonho. Estamos vendendo uma realidade. A gente mostrou para o torcedor. “Olha, as cadeiras são todas azuis. No dia tal elas vão ser todas preto e branco. O Anderson Simões (vice de Estádios) descobriu um Ovo de Colombo. Todas as indicações eram para trocarmos as cadeiras. Mas isso aí inviabilizaria a customização. Então desenvolveram essa pintura. Você tem que tirar primeiro toda a tinta, tirar a gordura, depois passar uma base, para depois aplicar a tinta. Esse Ovo de Colombo está sendo super importante.


Como tem enxergado a questão do Maracanã?

Acompanho com tristeza. Fica claro que esse negócio de arena Fifa é um problema muito sério. A Fifa faz a Copa e deixa para as cidades uns equipamentos que não são viáveis economicamente. É claro que o palco do Botafogo é o Maracanã. Mas prefiro jogar no Nilton Santos. No Maracanã, se eu não colocar 30 mil pessoas lá dentro, eu nem empato. A partir de 30 mil você começa a ter algum lucro. Vide as finais entre Vasco e Botafogo, no Carioca. Cada um levou um troquinho, pouco mais de R$ 200 mi, com mais de 50 mil pessoas. Como você vai fazer futebol desse jeito? Como você vai montar um time para arrecadar R$ 200 mil em uma final? Isso é muito sério e muito complicado. É que o palco é imponente. Você até pode levar para Volta Redonda, mas você vai perder a importância central de um grande estádio.


O Botafogo começa o ano mais forte do que 2016?

Começa, sem dúvida. Tenho plena certeza disso. Dos jogadores que saíram, o único que ainda não conseguimos repor foi o Neilton. Buscamos esse atacante veloz de lado. Esse tem sido nosso desafio, nossa busca, mas no geral o elenco hoje está bem mais forte

Presidente alvinegro participa ativamente das contratações do Botafogo no futebol (Foto: Vitor Silva/SSPress/Botafogo)

Esse atacante chega antes da Libertadores?

(Suspiro) Estamos trabalhando para isso. É muito difícil marcar prazo. Tem 19 grandes clubes buscando e mais 20 da Série B buscando. São 39 concorrentes em um primeiro momento. Todos estão tentando se reforçar. Todo mundo tem encontrado dificuldades para encontrar atacantes. Não temos nenhum nome no momento. Tivemos a negociação com o Vander, que nos interessou, mas o Apoel mudou de posição, não aceitou emprestá-lo, quis vender. O preço foi fora da nossa realidade. Não teve como. Mas essa foi uma negociação que andou bem.


Algum nome do Gerado Cano? Ele esteve recentemente aqui...

Ele está procurando. Ele sempre apresenta nomes. Mas temos que ouvir todas as partes. Para chegar até a minha esfera decisória, passa por Lopes, pelos analistas de desempenho, pelo Jair, pelo Cacá (vice de futebol)... muitos nomes morrem nesse processo. Às vezes fico torcendo daqui, busco informações. Mas no caso de jogadores estrangeiros é mais difícil. O Cano é um dos empresários que está nos ajudando. Mas não está fácil não.


Por que algumas negociações têm sido mais difíceis?

O torcedor tem me cobrado nas redes sociais por essas idas e vindas de jogadores. Eles precisam entender que a situação do Botafogo mudou. Em 2015, nós éramos alvos, não tínhamos como nos defender. Em 2016 já mudou um pouquinho. Agora, em 2017, eu negocio. Se o cara chega para mim, combina um negócio e depois pede mais... Se eu achar que ele merece, eu dou. Caso contrário, vai procurar sua turma, sem problema. Às vezes o cara sai para procurar a turma dele, se arrepende e volta. A gente conversa. Por isso essas idas e vindas. É início de temporada, passamos por ajustes, o clube tentando manter tudo dentro do orçamento... Faz parte do jogo de negociações.


Antônio Lopes é o homem de confiança do
 presidente em sua gestão (Foto:
SSpress / Vitor Silva / Botafogo)
O que faltou para o Pottker ser jogador do Botafogo?

Muita coisa. Primeiro, as partes têm um passado muito difícil. Os empresários fizeram empréstimos para gestão passada e de certa maneira se sentem injustiçados pela forma que foram tratados. É uma coisa que não tenho nem como avaliar. Depois, eles querem que nós resolvamos um problema que não criamos. Não pedimos, não usamos, mas querem que a gente pague o dinheiro com rapidez. Hoje, não dá para pagar o passado com rapidez. A gente procura equacionar o pagamento com o Ato Trabalhista, com o Profut...


Qual a importância da contratação do Montillo para o Botafogo?

O Montillo foi uma negociação simples. Impressionante. Simples, rápida, direta, sem concorrência ou contratempos. Começou bem, andou bem e acabou bem. A vontade dele de jogar no Rio de Janeiro foi fundamental. É claro que o momento do Botafogo pesou. Acabamos bem o Brasileiro, com vaga na Pré-Libertadores, mantivemos o elenco e a boa imagem, com os salários em dia. Tudo isso influenciou. É um jogador diferenciado, capaz de motivar a torcida, capaz de ser um fator de alavancagem do Sócio-Torcedor. Sem dúvida pelo fato de sermos um mercado exportador, quando você traz um jogador desse nível, você traz a torcida para perto. O ídolo é fundamental. Tem que ter um ídolo no time.


Por isso, no final de 2014, nosso maior medo era perder o Jefferson. Ele era nossa referência. E agora vem outros. O Camilo hoje tem essa condição, o Montillo vem para ser um ídolo, acho que o Canales tem potencial para ser também. É um jogador muito experiente, rival do Colo-Colo. Isso será mais um aperitivo. Ele já se apresentou bem. Vamos ver como ele volta nos treinos.


Mas por que só um ano de contrato com o Montillo?

Adaptação. O Montillo deixou claro que a família ocupa uma posição central na vida dele. Ele tem dois filhos, esposa... Apesar de o Rio de Janeiro ser uma cidade muito hospitaleira, sempre tem uma adaptação, especialmente para crianças pequenas. Ele é extremamente profissional. Esperamos que ocorra essa adaptação para que ele se sinta bem e depois a gente estenda esse vínculo.


A folha salarial mudou muito?

Veio o Montillo, mas saiu muita gente. Equilibrou. Continua uma folha dentro no nossa orçamento. Aumentou 20% (nota da redação: valor foi de R$ 3,5 milhões em 2016).


Fora a verba mensal destinada ao pagamento de dívidas, né?

Hoje, temos R$ 1,6 milhão por mês com o Ato Trabalhista, mais de R$ 600 mil com o Profut, fora os outros acordos. Estimo que a gente gaste cerca de R$ 3 milhões por mês só para pagar o passado. Estamos devendo a CBF, banco, credores individuais, ações cíveis. Temos algumas ações muito grandes sendo movidas contra nós na esfera trabalhista.


Está satisfeito com o aumento que teve o programa de Sócio-torcedor?

Está indo muito bem. Passamos dos 17 mil e esperamos chegar logo aos 20 mil, que é metade da capacidade do Nilton Santos. Será um recorde histórico nosso.


E essa renovação da base na Copinha...

Os garotos estão indo bem demais. Mesmo sem sete jogadores que subiram, o time continua muito bem. Vem mostrando maturidade. Quando saem algumas estrelas, é hora de outros, que não eram protagonistas, assumirem esse protagonismo. E eles se revelam. Casos do Jordan e do Alisson, por exemplo. O Amilcar está se revelando um atacante veloz de muito potencial. O Igor Cássio a gente já acreditava muito nele. Quando o Luís Henrique estava bem, o Manoel Renha (coordenador da base) já falava para esperarmos pelo Igor. Ele é mais novo que o Luís Henrique. O Victor Lindenberg está indo muito bem. O Yuri, o Gustavo (Bochecha), o Matheus Fernandes, o Pachu... estão todos aí já integrados à equipe principal.


Como enxerga o momento do futebol carioca?

O futebol carioca ainda vive um momento de divisão porque o Flamengo capitalizou muito uma imagem de que era o reformador do futebol, quando fundamentalmente o que ele quer é ganhar mais do que os outros. E não quer ganhar mais do que os outros pedindo mais dinheiro. Ele quer ganhar mais do que os outros tirando o dinheiro do Vasco, do Fluminense e do Botafogo. Não tem acordo dessa maneira. De repente o evento (Campeonato Carioca) descobre que o Flamengo não faz tanta falta assim. Acho que se você quer fortalecer um campeonato, você tem que entender que ele é um todo. Não adianta eu achar que um Vasco fraco é bom, que um Fluminense fraco é bom, que um Flamengo fraco é bom. Claro que não.


Os quatro grandes têm que estar fortes, equilibrados. Somos nós que levamos o torcedor ao estádio. A força está na rivalidade. Isso que leva o torcedor a assistir programas de televisão, procurar notícias na internet, comprar jornal... É isso que movimenta. Somos os quatro que movimentamos no Rio de Janeiro. É fundamental termos essa visão. O Campeonato Carioca é uma marca mais forte que qualquer outro estadual do Brasil. Hoje a garotada torce para o Manchester United, Manchester City, Bayern de Munique, Barcelona, Real Madrid... Temos que enfrentar isso. Os jogadores europeu são melhores que os brasileiros nos videogames. O Brasil adotou essa postura de exportador, e isso esvazia. Todo mundo quer ver os campeonatos europeus. Se não nos unirmos, vai ficar difícil.


E esse aumento da rivalidade com o Flamengo?

Com o Flamengo não temos relação alguma. É indiferente. Com o Fluminense nós temos boa esperança com a nova gestão, já conversei com o Pedro Abad. Acho que podemos trabalhar em conjunto. Tenho uma boa relação com o Eurico Miranda desde o começo. Em relação ao Flamengo, começou mal por causa do caso do Arão e depois nunca houve uma melhora efetiva. Todas as iniciativas nunca produziram um entendimento. No caso da Arena da Ilha, por exemplo, o Botafogo poderia ter feito uma passagem de tudo o que tinha feito para o Flamengo.


O Flamengo nos procurou, recebeu os valores e optou por não fazer. Antes do acerto, nem o Flamengo nem a Portuguesa nos procuraram. É aquele negócio. Não dá para esperar cavalheirismo. Mas nós também já tínhamos encerrado. O Botafogo saiu no dia 31 de dezembro, e o Flamengo entrou em janeiro. Eles poderiam ter ficado com um legado, mas não quiseram. É o direito que cada um tem. Acredito que eles enfrentarão alguns problemas, como nós enfrentamos lá.

Carlos Eduardo Pereira tem uma ONG de cachorros em Itaipava, interior do Rio (Foto: Vitor Silva/SSPress/Botafogo)

Numa análise geral, a efetivação do Jair foi seu grande acerto?

Algumas decisões você precisa tomar. Elas se acumulam no dia a dia. Na saída do René Simões, em 2015, o meu primeiro nome era o Antônio Lopes. Mas ele pediu: "Presidente, me peça qualquer coisa, menos voltar para o túnel". Sem problema. Chamamos o Jair para quebrar um galho. A gente olhava aquele trabalho na Série B não isoladamente da Série A. A gente queria uma coisa a longo prazo. Naquela época, falava-se no Doriva, que era a bola da vez. Mas quando surgiu a oportunidade do Ricardo Gomes, falei: "Poxa, dá para olhar para frente com o Ricardo". É um líder, um cara experiente, jogador de alto nível na Europa... Perfeito. Era o salto de qualidade que queríamos dar naquele momento.


Quando o Ricardo recebeu a proposta do Cruzeiro (logo após o Carioca), perguntei quem ele pretendia levar. Ele disse fulano, cicrano, beltrano... Fiz as contas e disse: "Ferrou (risos). O Botafogo vai ficar mal em termos de estrutura". Conversamos, chegamos a um denominador comum, e ele continuou. Passaram-se dois meses, veio a proposta do São Paulo. Repeti a pergunta: "Ricardo, quem você pretende levar?". Ele disse que levaria o Luís Octávio. Falei: "Só? Então não tenho mais nada a oferecer. O que você está ganhando já é um sacrifício para nós". Apertamos as mãos, e ele foi para lá. Ficamos com o restante da comissão técnica mantida. Falei para o Ricardo que não teria condições de ele comandar o Botafogo contra o São Paulo. Ele concordou. Um de nós sairia crucificado qualquer fosse o resultado.


E aí surgiu o Jair...

Aí veio a necessidade, estávamos na zona de rebaixamento, precisávamos motivar o grupo. Liguei para o Jair e falei: "Estou com um abacaxi, o Ricardo nos deixou. Quero saber se posso contar com você". Ele disse que estava aqui para quebrar o galho. Eu falei: "Jair, você não está entendendo. Não é para quebrar o galho. Quero você como treinador do Botafogo". Ele disse que era o que ele mais queria. Estava feito. No dia seguinte pela manhã anunciamos o Jair como treinador e não como interino. Apanhamos à beça. Muitas críticas, todos queriam um medalhão. No dia seguinte o Sassá, no finalzinho do jogo, nos deu a vitória contra o São Paulo no Morumbi.


O Jair é um profissional muito interessante, dedicado, tem essa vontade e conseguiu passar isso para o elenco. Ele conhecia como ninguém o elenco. Qualquer outro que chegasse ia demorar 60 dias para saber o nome dos jogadores, ainda mais saber como armar o time. O Jair sabia exatamente porque aquele esquema foi montado. Tanto que ele começou a fazer mexidas, como o Diogo mais à frente, que são típicas de quem conhece o dia a dia do jogador. Por isso ele arriscou. Também tem estrela. E é aquela coisa: se você não tiver um pouco de sorte, não adianta. E a estrela tem nos acompanhado.


Presidente ao lado de Jair Ventura e Ricardo
Gomes: duas decisões difíceis
(Foto: Divulgação/Botafogo)
Foi a decisão mais difícil de sua gestão?

Sinceramente, foram tantos momentos complicados e difíceis, que realmente é difícil saber. Em termos de futebol, a mais difícil foi a anterior, que foi cobrir a proposta do Cruzeiro ao Ricardo Gomes. Essa foi mais difícil porque avançamos ao limite. Era um momento em que o time estava desequilibrado, com muitos problemas de contusões, e ali a gente não podia perder o comando e passar aquela imagem de que o Botafogo estava vulnerável.


Tem algum grande arrependimento? Algo que faria diferente?

Eu sou acusado de ouvir demais as pessoas. Mas é o meu estilo. Se você não envolve as pessoas no processo de decisão, como são cargos voluntários, temos seguido bem nesse aspecto. Não tive nenhum arrependimento maior. Aprende-se muito. O futebol é uma escola, por vezes, impiedosa. Você não pode errar. Mas está tudo caminhando bem.


Vai ser candidato à reeleição?

Eu sou contra a reeleição por filosofia. Todo mundo vai muito bom no primeiro e tende a cair em um processo de acomodação no segundo. Isso é histórico. Não gostaria de antecipar o processo eleitoral do clube. Acho que está todo mundo pensando em coisas grandes, coisas bacanas, estádio, Libertadores, em elenco, atacantes de lado, centroavantes (risos)... A cabeça não está ligada em eleição. Não serei eu que vou mexer na eleição. Em casa eu sou um obediente vice-presidente (risos). Tudo isso pesa. Tem a saúde da minha esposa, ela teve um problema em 2015 (nota da redação: ela se curou de um câncer). Felizmente parece estar superado. Mas sempre acompanhamos com atenção. Não temos filhos, então é um com o outro. Tudo isso conta na hora de uma decisão.


Como conciliar a presidência do Botafogo com sua empresa, sua ONG de cachorros...

A ONG é fundamental para mim. Todo primeiro e terceiro sábado do mês fazemos os eventos de adoção de cachorros em Itaipava. É um negócio extremamente positivo. Até brinco quando o pessoal nas redes sociais me chama de presidente vira-lata, achando que está me ofendendo, é o contrário. Fico muito orgulhoso. O vira-lata é um sobrevivente. É forte, resistente, tem capacidade de adaptação. Tive meu filho (cachorro Biriba) que se foi infelizmente três dias após eu vencer a eleição. A gente aprende demais. Obviamente ele se chamava biriba, vira-lata, preto. Ele era preto e branco. Morreu três dias após a eleição. Peguei ele na rua, em 1999.

Carlos Eduardo Pereira tem em seu gabinete esta foto ao lado da esposa Rose (Foto: Vitor Silva/SSPress/Botafogo)

E em relação à vida pessoal? Sua esposa está sempre com você no Botafogo...

Conheci minha esposa em General Severiano, em 1994, por causa da política do Botafogo. Eu respondia pela presidência e defendia o contrato da Pepsi, que envolvia a Seven Up e o Túlio. Ela participava, mas era da oposição. Foi nosso primeiro encontro. A oposição venceu em casa (gargalhadas). Não só venceu, como há 19 anos domina o cenário político lá em casa.


Mas há o lado ruim, como o que passou com sua conta pessoal bloqueada...

Eu continuo com problemas. Eu e o vice-geral (Nelson Mustafej), em uma dessas ações surreais da Vara do Trabalho. Não contratamos o jogador (Túlio Guerreiro), não foi na nossa gestão, o caso foi em 2008, e quem está com a conta bloqueada sou eu. Agora piorou. Se já não bastasse a minha conta, bloquearam meus bens. Do meu e do Nelson. A última decisão da juiz beira a insanidade. Ela admitiu que o Túlio Guerreiro tem que estar no Ato Trabalhista, mandou ele para o Ato, mas ao mesmo tempo mandou continuar a execução contra nós. Não dá para entender. E nós estamos equacionando as dívidas há dois anos rigorosamente em dia. A partir desse ano vamos passar a pagar quase R$ 1,7 milhão por mês. Nada da nossa gestão. Tudo do passado. A fila está andando. O que falta?


E como recebe os elogios dos torcedores?

Vejo tudo dentro da normalidade. Até fico constrangido quando as pessoas pedem para tirar fotos comigo. Eu não sou nada. Sou apenas um coordenador das atividades. As estrelas são os jogadores, nossos ídolos. Mas faz parte desse processo de resgate da nossa autoestima. Desde o primeiro momento procuramos por isso. Fizemos isso pelo lado administrativo, mas em algum momento você tem que arriscar alguma coisa. É claro que dentro de um parâmetro para mexer com as pessoas no campo esportivo. E realmente conseguimos mexer com a torcida. Mas é claro que sem sorte, não adianta. Quando a bola não entra, todo seu trabalho, melhor planejado que seja, fica difícil. O Botafogo agora não é mais aquele clube azarado que leva o gol aos 47 do segundo tempo. Pelo contrário. A gente faz aos 47. Foram quatro ou cinco partidas seguidas com vitórias no fim. E isso é bom. Recuperaram a confiança no Botafogo.

Presidente do Botafogo espera sucesso de Montillo e quer vida longa ao argentino (Foto: Vitor Silva/SSPress/Botafogo)

Fonte: GE/Por Felippe Costa, Marcelo Baltar e Thiago Lima/Rio de Janeiro