terça-feira, 26 de abril de 2016

Sai de baixo: da Cidade de Deus para o mundo, Ribamar muda de vida no Bota


Artilheiro alvinegro no Carioca e recém-chamado para seleção sub-20, atacante teve peixe vendido pela mãe em mercado e vira destaque em quatro meses no profissional



O Ribamar, famoso personagem do programa de humor "Sai de Baixo", exibido pela TV Globo de 1996 a 2002, vai sendo ofuscado por um homônimo que surgiu como um relâmpago no futebol. Ao menos no Rio de Janeiro, o Ribamar do momento é um atacante do Botafogo, de só 18 anos. Carrasco do Fluminense e herói da classificação alvinegra à decisão do Campeonato Carioca, o garoto teve uma ascensão meteórica. Em campo, subiu dos juniores em janeiro para completar o grupo na pré-temporada, fez da necessidade uma oportunidade de surpreender Ricardo Gomes e ganhar o espaço da joia Luís Henrique, virou titular e artilheiro do time no estadual - com três gols, ao lado de Rodrigo Lindoso - e recentemente foi convocado para um período de treinos com a seleção brasileira sub-20 na Granja Comary. Fora das quatro linhas, renovou contrato até o fim de 2018, recebeu aumento salarial, passou a ter multa rescisória de R$ 24 milhões e a conviver com o assédio nas ruas e da imprensa - o que, pela timidez, ainda mostra muita dificuldade para lidar. Uma mudança drástica de vida em apenas quatro meses.

Ribamar na Cidade de Deus, uma das maiores comunidades do Rio de Janeiro (Foto: Reprodução / Instagram)


Se a mudança é radical até mesmo para jovens de classes média e alta, imagine tudo isso na cabeça de um garoto criado em uma das maiores comunidades carentes do Rio de Janeiro, a Cidade de Deus, na Zona Oeste. Mesmo em um local que já foi considerado um dos mais violentos da capital carioca e que teve sua criminalidade como tema do filme "Cidade de Deus" (2002), do diretor Fernando Meirelles, Ribamar conseguiu se focar no esporte mesmo próximo do mundo das drogas. Agora famoso, não deixou o sucesso subir à cabeça. Após a classificação para a final do estadual, homenageou o lar, onde mora até hoje: "Esse gol foi para a minha família, meus amigos e para minha comunidade, a Cidade de Deus", vibrou no domingo.


- Ontem (domingo) eu cheguei muito tarde, apenas alguns amigos estavam me esperando. O pessoal gosta muito de mim, sempre faz festa. O apoio da família é fundamental. Eles me esperaram chegar em casa para me apoiar e me abraçar. Me dão dicas e conselhos. Tenho que manter a cabeça no lugar sempre. Não imaginava conseguir as coisas tão rápido assim. Hoje estou aqui, mas há menos de cinco meses estava na Copinha, com o sub-20, sendo eliminado. Hoje estou na final do Carioca - afirmou Ribamar, escolhido pelo Botafogo para dar entrevista na última segunda, em General Severiano, após seu terceiro gol (veja todos nos vídeos abaixo).









"VENDIDO" PELA MÃE, "APELIDADO" PELO PAI

Por falar em família, os pais de Ribamar, embora separados, têm influência na carreira do filho. A mãe, Dona Fátima, trabalhava como caixa em um supermercado da Barra da Tijuca quando ouviu dois homens conversando sobre futebol e enxergou que era hora de vender o "peixe" do filho aos desconhecidos. Um deles era o Seu Goulart, bancário aposentado de 74 anos. Ele desconfiou que era "papo de mãe", mas resolveu assistir a um treino do menino de 13 anos no time de futsal do Grajaú Tênis Clube.


Ribamar ao lado da mãe, Dona Fátima, durante
renovação de contrato (Foto: Reprodução / Instagram)
- Ele arrebentou logo quando o fui assistir. Fez uns quatro ou cinco. Eu vi e disse: "Ele é bom demais" - contou Goulart, que o levou para para fazer testes no CFZ, do Zico, onde também se destacou, principalmente pelo chute forte.

- Primeira bola dele no CFZ já colocou um cara na cara do gol. Depois, arrumou uma bomba. Ele precisava só de alguns minutos para se destacar.


E do pai, que não é tão próximo do filho como a mãe, veio o sobrenome que acabou pegando em Lucas Ribamar Lopes dos Santos Bibiano. O jovem admite que gostaria de ser chamado pelo primeiro nome, mas o uso frequente da alcunha no meio do futebol o fez aceitar o apelido.



CHINELO DE DEDO: OS PRIMEIROS PASSOS


Ribamar chegou ao Botafogo com 14 anos e
conquistou espaço (Foto: Reprodução / Instagram)
Seu Goulart, porém, com o passar do tempo não conseguiu bancar todas as despesas para levar o jovem aos treinos e pediu ajuda a um vizinho chamado Aroldo, que tinha contatos com o Botafogo. Ribamar foi levado junto com aproximadamente cem garotos para fazer testes no infantil alvinegro e participou de oito peneiras - eram testes sequenciais, o que não significa que ele tenha ficado reprovado nos primeiros.


Depois de algumas semanas, Ribamar recebeu a notícia de que havia passado e foi chamado para se apresentar ao Botafogo. No primeiro dia, foi de chinelo de dedo, o que acabou causando um problema. Um dirigente da época se recusou a recebê-lo sem calçado. No outro dia, foi de chuteira, e assim começou a sua era dele em General Severiano.


Ribamar chegou ao Botafogo aos 14 anos e, em 2015, fez uma grande temporada na base, marcando 17 gols em 37 jogos. Ele também foi o artilheiro alvinegro na campanha do título da OPG (Torneio Octávio Pinto Guimarães) no ano passado. Nesta temporada, jogou a Copa São Paulo de Futebol Júnior e marcou uma vez na competição.


QUASE IDA PARA O SÃO PAULO

Mas o Botafogo correu o risco de perder o seu atual maior destaque prata da casa no início do ano. Em janeiro, antes de subir para os profissionais e ser valorizado, o atacante entrou na mira do São Paulo, que observa o mercado e tem histórico de contratar reforços das categorias de base de outros clubes. Em negociação para a liberação de Luis Ricardo, Ribamar quase foi envolvido na transferência, junto com uma compensação financeira. Também propuseram uma troca com o lateral-esquerdo Reinaldo, que o Alvinegro tinha interesse. Mas nada foi para a frente. E hoje a diretoria respira aliviada por ter segurado uma de suas maiores promessas.


Fonte: GE/Por Chandy Teixeira, Marcelo Baltar e Thiago Lima/Rio de Janeiro