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domingo, 10 de novembro de 2013

Uma carta para Seedorf


Por Blog FogoEterno


Original disponível em http://fogoeterno.wordpress.com/2013/11/07/caro-clarence-uma-carta-para-seedorf/#comment-7974


Caro Clarence:


Permita-me chamá-lo pelo primeiro nome. Em primeiro lugar, quero explicar o motivo de ter escolhido endereçar a você essa carta aberta, não ao presidente do clube ou ao treinador do meu time. Foi por um motivo simples.

Porque você é um vencedor. No gramado e na vida. Poderia ter sido apenas mais um menino pobre do Suriname que gostava de futebol. Foi muito além: tornou-se uma referência para milhões no mundo inteiro. Mais do que um ídolo, você é um exemplo.

Para isso, porém, você teve que suar muito. Superadas as adversidades, você deslanchou nos gramados europeus. E a gente também suou, infelizmente sem deslanchar. Suamos frio, por exemplo, quando lotamos o Maracanã para ajudar o nosso time ser campeão, pela primeira vez, da Copa do Brasil. Precisávamos apenas de um gol. Não fizemos: em 1999, entramos no estádio de peito aberto, prontos para explodir de felicidade. Saímos em silêncio. Éramos 100 mil. No estádio, não somos mais. E vai demorar para voltar a ser.

Sabe o porquê?

Em menos de 20 anos, você ganhou quatro vezes a Liga dos Campeões. Na primeira vez que levantou a taça, pelo Ajax, em 1995, nós conquistamos o Campeonato Brasileiro. Depois disso, você ganhou mais três Champions League. Nós não ganhamos mais nenhum título nacional nem internacional.

Pelo passado glorioso (e pela ausência de grandes títulos recentes), o Botafogo é o Uruguai da América do Sul. Mas o Botafogo também é a Holanda do mundo. Encantamos o nosso país em 2007, tal e qual a seleção de seu país em 1974. Até fomos apelidados de Carrossel Alvinegro por, entre outros motivos, incessante movimentação ofensiva dos meias e atacantes, sem contar a profusão de gols bonitos que fizemos. Jogávamos um “futebol vistoso e envolvente”, para usar a expressão que nove entre dez cronistas utilizaram. Assim como a Laranja Mecânica de 1974, não ganhamos nada. Nem mesmo a garantia de que, por ter chegado tão perto e impressionado tanta gente, ganharíamos um título na próxima competição. Não é assim que funciona no futebol.

Pior: ainda em 2007, depois de alguns solavancos e uma humilhação no país vizinho, não conquistamos sequer uma vaga na Libertadores. Cantávamos que ninguém seria capaz de nos calar, mas não foi bem assim. O gosto amargo daquele silêncio até hoje está na nossa boca. Houve outras frustrações recentes, enquanto você levantava taças pelo Milan e pelo Real Madrid. Não convém relacioná-las, até porque cada um sabe onde o calo mais apertou – até lágrimas viraram motivo de deboche. A verdade é que, nos últimos anos, com raras exceções como a alma lavada em 2010 (Obrigado, Jefferson! Obrigado, Loco! Obrigado, Herrera! E, sim, obrigado, Joel!), vivemos sob a sombra da frustração.


Mas aí você nos escolheu. Quando você chegou e foi apresentado no nosso estádio (sim, ainda tínhamos estádio), foi uma injeção instantânea de esperança.

E o que testemunhamos você fazer, dentro e fora de campo, foi muito além da nossa expectativa.







Sem você, Seedorf, não estaríamos ainda nessa briga por uma vaga na Libertadores. Muitos outros times, com mais dinheiro, já ficaram pelo caminho. Tenho consciência da sua importância: basta ver o que você fez no primeiro turno, sendo decisivo com gols, assistências e gritos de incentivo e reprimendas que fizeram o time se mover em direção ao topo da tabela.

Mas precisamos de mais Seedorf nessa reta final. Aqui serei um pouco indelicado, mas vamos lá: você é um jogador caro, ao menos para o nosso clube, que não tem patrocinadores de peso nem as maiores cotas da tevê. E o investimento, nos dois últimos meses, não tem feito a diferença em jogos decisivos. Pelo que ganha e representa, por exemplo, você me decepcionou no jogo que representou uma das decisões do Brasileiro, contra o Cruzeiro, já pelo returno. Eu estava lá no Mineirão e vi que você não conseguiu se desvencilhar da marcação de um garoto, Lucas Silva. Sem contar o pênalti perdido. Você até poderia ter perdido aquele pênalti, Seedorf, se tivesse buscado a redenção no mesmo jogo ou nas partidas seguintes. Não foi o que aconteceu. A partir dali, ficou evidente que você cansou, o Cruzeiro disparou e o nosso time despencou, com Oswaldo cometendo uma série de oswaldices e sendo superado taticamente por técnicos menos experientes, diretoria batendo cabeça depois de perder talentos e atacantes com capacidade zero de balançar as redes.

Mas, ok, parabéns ao time azul, que tem um treinador sério e dedicado (que um dia por sinal poderia trabalhar em General Severiano, até por ter parte de sua história como jogador no Botafogo). Não dava mesmo para segurar os mineiros. E, mesmo decepcionado, percebi que não faltou vontade naquela “decisão” — o placar acabou sendo mais elástico do que realmente foi o jogo.

Só que agora complicou, Seedorf. O Botafogo não podia ter perdido DAQUELE JEITO a classificação para as semis da Copa do Brasil. Não para o maior rival, não de goleada, não sem lutar, não sem esboçar algum tipo de reação, não como figurantes de uma festa pintada sem as nossas cores. Mesmo quando tivemos times tecnicamente mais fracos (formado por jogadores como Túlio Souza, Somália, Adriano Felício, Fábio Fabuloso e outros abnegados), vendemos caro os insucessos. Não foi assim naquela fatídica noite. O adversário renasceu e sua torcida nos tripudiou (e você sequer imagina, Seedorf, o que se passa com uma criança botafoguense na escola depois de uma derrota como aquela). A reconstrução da auto-estima alvinegra, que avançava lenta mas constantemente e ganharia impulso formidável, sofreu duríssimo golpe; se fosse um jogo de tabuleiro, eu diria que não foi apenas “volte dez posições”. Foi “volte ao ponto de partida”. E, inevitável constatar, contaminou as nossas expectativas para a reta final do Brasileirão. Foi uma cachoeira de água gelada.

A angústia se acentuou com o crescimento dos times que brigam por uma vaga na Libertadores, ainda mais quando aumenta também a cada semana a possibilidade de o G4 virar G3. E também quando, com irritação e perplexidade, vemos que o Botafogo não demonstra nos últimos jogos a mesma capacidade de vencer, ou ao menos de vender caro a derrota. Seedorf, a sua atuação e de seus colegas no Serra Dourada foram lamentáveis: ficou evidente que, mesmo com uma semana de descanso e treinos, vocês não entraram para decidir o jogo mas para tentar um gol em uma bola vadia; se não desse, o empate estaria de bom tamanho. Quem semeia empate colhe derrota. Foi o que ocorreu no último domingo.


Bom, mas e agora?

Agora chegou a hora de mostrar mais vontade de ganhar. Mais coragem de decidir. Mais tesão pela vitória. É momento de superação, não de contemplação — nem mesmo de muita reflexão (suas entrevistas, aliás, têm sido brilhantes, mas, nesse momento, prefiro vê-lo brilhar no campo).

Endereço essa carta a você, Seedorf, porque não confio muito na capacidade de nosso treinador (na verdade, a passividade dele durante as partidas me irrita profundamente) nem nas escolhas dele: poupou o time para a Copa do Brasil e tudo que conseguiu, além de ver o maior rival aplicar uma cicatriz na nossa testa, foi desperdiçar a chance valiosíssima de assegurar mais dois pontos contra o Vasco. Também não reconheço no presidente a autoridade para fazer a cobrança devida, ainda mais quando ele se permite brincar sobre o que fará se os jogadores não obtiverem a classificação para a Libertadores, dizendo que vai “matar” um por um. Por isso, essa carta. Que, na verdade, é um apelo.


Quero a sua força como era antes, Seedorf.





Assuma novamente o papel de liderança dentro de campo. A sua experiência – e o seu salário, volto a lembrar – o credenciam a desempenhar essa tarefa: distribua passes e gritos, oriente seus jovens colegas e faça cobranças, no campo e no vestiário. Mostre como que é que se faz para ganhar, na técnica ou na marra. Antecipe, enfim, o início de sua trajetória como treinador.

Você tem uma grande responsabilidade: chame-a para si e assegure a esperança da nossa torcida para 2014. Espante nossos fantasmas! Assim, voltaremos a lotar os estádios não com os nossos receios, mas com nossos sorrisos — e você vai ver, se é que ainda não percebeu, que a nossa torcida pode ser avassaladora em entusiasmo, humor e paixão.




Somos ressabiados porque as circunstâncias nos fizeram assim nos últimos anos, Seedorf; mas a gente quer mesmo é ser feliz. E, posso te garantir, não existe nada mais bonito nesse mundo do que um botafoguense depois de uma conquista.

Ajuda a gente?

Abraço pra você, Seedorf.

Estamos juntos nessa caminhada.

Que seja gloriosa.

Um comentário:

  1. Não existirá um comentário ou desabafo ou... tão importante e belo quanto esse seu,vale o meu e o de milhares de estrelas solitárias,que este seja o maior de todos e o que possa valer as nossas e os nossos desejos, parabéns e conte comigo até nossa vitória.

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