domingo, 30 de novembro de 2014

Novo presidente do Botafogo diz que Seedorf foi 'contratação capenga'



Em entrevista ao GLOBO, Carlos Eduardo Pereira fala sobre desafios de seu mandato: 'Agora virei vidraça'


O novo presidente do Botafogo, Carlos Eduardo Pereira, diz que agora 'virou vidraça' - Marcos Tristao / Agência O Globo

Novo presidente do Botafogo, Carlos Eduardo Pereira surpreendeu o clube ao derrotar o grupo de Montenegro na última terça-feira. Empossado, é hora de abrir diálogo com a oposição e rever métodos de Maurício Assumpção, seu antecessor. Festejado por muitos, Seedorf é visto como símbolo de riscos desnecessários.

O senhor foi eleito por 442 votos. É uma meta que o colégio eleitoral seja maior?

Eu espero sinceramente que sim. Nós queremos mudar a tabela de contribuições para permitir que as pessoas possam se integrar ao clube já através do sócio-contribuinte, uma vez que o sócio-torcedor é proibido pelo clube de votar, o que demanda uma mudança estatutária.

Em 2008, o senhor apoiou a candidatura de Maurício Assumpção. Logo depois, afastou-se dele. Se arrepende de tê-lo apoiado?

As ideias que trouxeram o Maurício para o clube no final de 2008 eram boas e positivas. Depois que o barco começou a sinalizar que o rumo era outro, ficou complicado mantermos o apoio a ele. Tanto é que a coisa seguiu piorando e, em 2011, montamos uma candidatura de oposição, já prevendo as dificuldades que teríamos.

O senhor venceu o grupo apoiado por Montenegro, que dominou as eleições no clube nos últimos 20 anos. Com o fim da eleição, ele vai participar da gestão?

Ele gosta muito de participar de eleição (risos). O Carlos Augusto (Montenegro) é um grande benemérito. No retorno para General Severiano, teve uma participação fundamental, é uma pessoa de grande prestígio. Vencida a eleição, você está ligado às ideias do seu grupo político, mas tem que agir de forma institucional. O Botafogo não pode romper com as pessoas por que democraticamente elas se agruparam de determinada maneira na eleição.

Já conversou com ele?

Liguei no dia seguinte. Mandei um abraço. Fui vice-geral dele, de quem tenho amizade pessoal. Politicamente, estivemos de lados opostos, mas nada que impeça o diálogo. Ele não vai saber fazer oposição porque não é muito o jeito dele. Posso até dar umas dicas de como fazer oposição (risos), mas acho que não vai ser o tom. Se for, vai ser uma oposição construtiva e nós vamos estar prontos para ouvir.

Carlos Alberto Torres será o “ministro do futebol". O que isso significa?

O Carlos Alberto vai nos ajudar em vários projetos em 2015. Ele tem muita credibilidade e conhecimento no futebol. Vai nos ajudar na captação de novos negócios. Queremos renovar com a Guaraviton, mas estamos pensando em alternativas caso não seja interesse deles e também estamos vendo alternativas para o fornecedor de material esportivo. De alguma maneira, O Carlos Alberto vai nos ajudar em todo esse processo.

O Torres tem um perfil combativo, assim com o Mantuano, seu grupo político...

E eu também tenho esse perfil combativo.

Como tantas pessoas com este perfil vão trabalhar juntas no futebol?

Exatamente por que a gente tem consciência dessa combatividade é que eu estou procurando rodar abaixo do limite. Para termos sempre uma margem de segurança. O Carlos Augusto (Montenegro) fez uma colocação que, a partir de agora, eu deixo de ser pedra e viro vidraça. É óbvio que essa é a realidade. Temos que ter cautela nas atitudes, equilíbrio. Aquele meu gesto com os quatro atletas afastados (quando pediu a reintegração) teve uma simbologia. Eu sabia que era uma possibilidade muito remota, mas indicava aos atletas que saíram que o Botafogo não é um clube hostil. Foi uma atitude exclusiva da pessoa que ocupava a presidência. E também para dissociar nossa gestão da passada. Além de mostrar que esta é uma gestão de diálogo. Eu não gosto dessas medidas intempestivas. O Botafogo já esgotou sua cota de estresse em 2014 e avançou na de 2015. Evitar problemas maiores: esse vai ser nosso principal desafio e objetivo.

A contratação de Seedorf foi um erro?

A contratação dele foi capenga porque trouxe um grande ídolo, mas não trouxe patrocínios, nenhuma sustentação financeira. Foi um encargo elevado e praticamente todo do clube. Foi positivo para a imagem do clube? Muito. Traduziu-se em conquistas? Tenho muitas dúvidas. Você assumir um risco tão elevado num clube já debilitado é discutível. Viveu-se um momento de deslumbramento e esse dinheiro hoje está fazendo muita falta.

Não é algo semelhante com a situação do Jefferson, que tem um alto salário?

Não. O Jefferson é um atleta que está no clube. Tem contrato em vigor com o clube e vem crescendo na atuação dentro do Botafogo. Ele já é um ídolo, é muito mais jovem, tem perspectiva de carreira, é titular da seleção brasileira. Eu vejo o Jefferson em uma situação totalmente diferente.

Um dos membros da sua chapa, Bernardo Santoro, escreveu um texto que fez sucesso na internet em que colocava em xeque a existência do Botafogo. O clube está com sua vida em risco?

O Bernardo é um dos grandes colaboradores que temos. É uma pessoa com muita experiência na política e fez esse trabalho contando com dados que chegavam. A gente quer esmiuçar mais a situação. É claro que a dívida gigantesca é um complicador. Na parte fiscal e trabalhista, se você não conseguiu chegar num equacionamento, nenhuma empresa sobrevive com 100% de suas receitas bloqueadas. O que acontece com a Justiça do Trabalho é que um juiz manda bloquear 30%, outro juiz mais 30%. Aparece outro juiz e bloqueia mais 30%. No final, você está com 90% bloqueado. Nosso jurídico está estudando uma forma de proteção. Vão bloquear 30% da receitas? Legal! O resto precisa rodar para o clube funcionar. A gente chegou em um ponto em que, com receitas bloqueadas, como você vai montar um plantel, assinar com um executivo, um treinador e um atleta? Vai esperar que o sindicato desbloqueie parte do seu dinheiro, como agora?

Como interromper isso?

Vamos pedir uma carência para investidores e empresas financeiras. Não chega a ser uma moratória, mas é uma ampla renegociação porque, em 2015, o dinheiro que deve estar disponível é muito pouco, talvez metade do orçamento (anual). Para disputar um Carioca, Copa do Brasil e Brasileiro, a expectativa é que o Engenhão venha criar novas receitas e nos dê um outro fôlego. Tem muita coisa aparecendo, muita coisa nebulosa, compromissos passados para terceiros. A gente leva sustos a cada momento.

O prefeito Eduardo Paes já sinalizou com a volta do Engenhão para o Carioca?

Essa é a expectativa. A partir daí, vamos operar o programa de sócio-torcedor. Talvez nosso estádio não esteja a plena capacidade, mas a gente precisa de um campo para jogar o Carioca. Hoje, as opções são muito limitadas.

Já esclareceram a dívida de cerca de R$ 24 milhões com a Odebrecht, administradora do Maracanã?

Ainda não. O jurídico está levantando isso e algumas coisas não estamos nem encontrando os contratos.

Durante a campanha, o senhor falou sobre a possibilidade de discutir no clube a presença de um grande investidor. Seria um dono do Botafogo?

Não. O Botafogo sempre pertencerá a seus sócios. Seria uma alternativa a ter o debate aprofundado caso todas as outras alternativas mais convencionais não venham a surtir efeito, mas sempre preservando que o Botafogo seja conduzido por seus sócios. O que a gente espera facilitar é adotar políticas de transparência e credibilidade. A hora em que você tiver uma contabilidade estruturada, auditoria externa efetiva e reconhecida internacionalmente e caminhos para o dinheiro entrar e sair do clube, coisa que hoje não existe, você tem como dialogar com parceiros.

É um modelo diferente do atual, em que se pede dinheiro para botafoguenses milionários?

Sim. Esse modelo se esgotou. Não dá mais. A capacidade de endividamento do clube estourou completamente. Pontualmente, por um prazo curto, pode acontecer, mas se a gente não conseguir desbloquear e movimentar as contas, nem isso.

E a promessa de criar um centro de treinamento integrado para a base e o time profissional?

É outra coisa que o Carlos Alberto vai poder nos ajudar. O nosso vice de finanças, Álvaro Antunes, que é construtor — mas não usará a empresa dele para construir o CT —, está desenvolvendo o projeto. São de oito a dez campos, com alojamento para concentração. Precisamos localizar o terreno e vamos oferecer este projeto ao mercado. O Botafogo tem o knowhow, já tem os atletas e a possibilidade da disputa dos campeonatos. O investidor estudaria uma forma de fazer o aporte e participar dos resultados.

POR EDUARDO ZOBARAN