quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Vitória sobre câncer faz Navarro lidar com pressões no futebol: "Vida segue"


Atacante uruguaio, que enfrentou linfoma aos 17 anos, garante não se iludir com bom momento e enxerga como estímulo ter no Botafogo a sombra de Loco Abreu



No dia 23 de dezembro de 2002, Álvaro Navarro se preparava para, mesmo aos 17 anos, disputar o Sul-Americano sub-20, que ocorreria dali a menos de um mês, no Uruguai. Mas naquele dia o atacante teve acesso ao documento que diagnosticava o Linfoma de Hodgkin, um tipo de câncer que surgiu na região de sua garganta. Mas a tristeza e a incerteza do futuro que tomaram conta de sua cabeça naquele momento foram, com o passar dos anos, substituídas pelo pensamento de que é preciso aproveitar o momento, esquecer as pressões do mundo do futebol e não se deixar levar pelos altos e baixos da carreira. É dessa maneira que o camisa 9 do Botafogo vive após marcar seus dois primeiros gols pela equipe – na vitória por 3 a 1 sobre o ABC, na última terça-feira.


Usando a cabeça, Navarro foi o herói da vitória do Botafogo sobre o ABC (Foto: Gustavo Rotstein)
A luta contra o câncer fez Navarro interromper sua carreira no futebol por seis meses. Neste período, passou por seis sessões de quimioterapia e precisou raspar o cabelo, que já começava a cair como efeito colateral da medicação. A oportunidade de disputar o Sul-Americano sub-20, no entanto, veio dois anos depois. Em 2005, aos 19, cumpriu o objetivo, desta vez na Colômbia – marcando um gol –, mostrando a força que o faz hoje levar com tranquilidade a pressão sofrida no Botafogo, que ainda luta para se recuperar na Série B.


- Tive essa doença muito jovem, sem saber direito o que era. Nunca me vi parando de jogar futebol. Queria, sim, que tudo passasse rápido para voltar a jogar logo. Com certeza essa experiência me fez lidar com as dificuldades do futebol de maneira diferente. O futebol é algo lindo e coisas ruins podem acontecer na nossa carreira, mas a vida segue – disse o atacante de 30 anos, em conversa com o GloboEsporte.com.

Doença, ou Linfoma de Hodgkin, na definição do Instituto Nacional de Câncer (INCa) é uma forma de câncer que se origina nos linfonodos (gânglios) do sistema linfático, um conjunto composto por órgãos, tecidos que produzem células responsáveis pela imunidade e vasos que conduzem estas células através do corpo.


Navarro chegou ao Botafogo no momento em que a equipe se reformulava e com novo técnico assumindo o comando. A equipe sofria com a escassez de gols e vitórias. Mas o atacante manteve a tranquilidade para não sucumbir à pressão. Em seu segundo jogo como titular, marcou dois gols e agora usa toda experiência – na profissão e na vida – para não se deixar levar.


- Essas pressões são normais. Hoje você é o melhor porque ganhou, e amanhã é o pior porque perdeu. Então é preciso fazer tudo com calma e pensar que não é de uma maneira e nem de outra. Fico tranquilo, fazendo passo a passo, porque temos um objetivo final: fazer o Botafogo campeão.


O atacante também reage com tranquilidade quando surgem as comparações com Loco Abreu. Mas, antes de pensar na responsabilidade por encaixar-se nas características do ídolo da cavadinha, Navarro prefere ver que o fato de ser compatriota e ter características parecidas com as do camisa do antigo 13 dão a ele o conforto necessário para escrever sua própria história.


- Pode ser que me ajude o fato de terem passado por aqui recentemente uruguaios como Loco, Lodeiro e Arévalo. Essa comparação é natural, porque somos centroavantes, uruguaios e altos. Mas tenho que ficar tranquilo e pensar no hoje. O amanhã a gente vê o que acontece. Por que não pensar em ficar mais tempo aqui? Mas, claro, tenho que ir devagar, pensar jogo a jogo e buscar o título - destacou ele, que antes de chegar ao Botafogo passou por clubes de Argentina, Chile e Equador.




Navarro sabe que ainda precisa fazer muito para cair de vez nas graças dos alvinegros, como ocorreu com seu antecessor. Mesmo assim, enxerga da melhor maneira possível o que viveu até agora no Botafogo. Morando na concentração de General Severiano, o uruguaio tem vivido de perto o dia a dia do clube e de seus torcedores.


- Se o atacante não faz gols, não cumpre seu objetivo. Tenho que estar bem, porque então eles saem naturalmente. O Botafogo é um clube gigante, que deu tudo o que precisei desde a minha chegada.


Por Gustavo RotsteinRio de Janeiro/GE