terça-feira, 4 de julho de 2017

O Botafogo está melhor preparado para era pós-Montillo do que pós-Seedorf?


GloboEsporte.com compara os momentos das inesperadas despedidas dos últimos dois nomes de peso do clube. Melhor estruturado, Alvinegro tem tudo para evitar sofrimento que passou em 2014





Coincidência ou não, os últimos dois grandes jogadores contratados pelo Botafogo encerraram a carreira no clube. Só que em momentos um tanto quanto inesperados.


Assim como Montillo, frustrado com as seguidas lesões, anunciou sua aposentadoria na última quinta-feira, às vésperas das oitavas de final da Libertadores, há quatro anos era Seedorf que pendurava as chuteiras com o Alvinegro classificado para o maior torneio da América do Sul. Na época, o holandês aceitou convite para virar técnico do Milan, da Itália.


E o Botafogo, como fica nessa história? O clube sofreu demais depois da saída de Seedorf. Não só dentro, como também fora de campo, e acabou rebaixado ao final da temporada de 2014.


Começando agora a vida pós-Montillo, a fase não é das melhores, no entanto, a tendência é que o Alvinegro sobreviva mais tranquilo. Mas por quê? O GloboEsporte.com comparou as duas "eras" em cinco tópicos: reação; time; dependência; finanças e contratações. Confira abaixo:


1) REAÇÃO

Pós-Seedorf: internamente em General Severiano, dirigentes imaginavam que o holandês, que já vinha fazendo testes dirigindo times menores do Rio de Janeiro, não fosse tardar a parar de jogar.

Mas a aposentadoria com o Botafogo de volta à Libertadores depois de 18 anos, e a chance do craque disputar pela primeira vez o principal torneio da América do Sul, pegou a torcida desprevenida. Muitos alvinegros até hoje não aceitam a saída de Seedorf, que foi ser técnico do Milan, mas não durou muito tempo no cargo: apenas seis meses.

Pós-Montillo: diferentemente do holandês, o argentino foi contratado para jogar a Libertadores, mas também pouco conseguiu fazê-lo por causa das cinco lesões em seis meses. Ainda assim, nenhum alvinegro esperava que ele fosse desistir de tentar voltar na fase final do mata-mata, o que o deixa "empatado" com Seedorf em relação à surpresa.

A desvantagem é que o baque emocional de perder a principal estrela agora acontece no meio da temporada, com os campeonatos rolando.



Momentos marcantes de Montillo em seis meses de Botafogo (Foto: Infoesporte)


2) TIME

Pós-Seedorf: a equipe liderada pelo holandês fez um grande ano de 2013, quando foi campeã carioca e liderou por várias rodadas o Brasileiro, terminando em quarto lugar. Porém, foi sofrendo desmanche aos poucos. Rafael Marques, um de seus principais jogadores, também saiu e foi para a China.

O técnico Oswaldo de Oliveira, sem oferta para renovar, também deixou o clube ao fim do contrato. Na reta final de 2014, só Jefferson e Gabriel ficaram em relação ao time que obteve a vaga na Libertadores no ano anterior.

Pós-Montillo: assim como aconteceu com Seedorf, a despedida do argentino acontece com a equipe vivendo bom momento: classificada para as oitavas de final da Libertadores, para as quartas de final da Copa do Brasil e brigando pelo G-6 do Brasileiro.

Mas a vantagem é que, ao que tudo indica, o time atual não vai precisar se reinventar por causa de desmanche. Dos titulares, Gatito quem está na mira do futebol europeu – o Napoli, da Itália, prepara oferta de R$ 11,5 milhões pelo goleiro –, mas caso ele saia o clube tem Jefferson como peça à altura.


3) DEPENDÊNCIA

Pós-Seedorf: o time que voava em campo em 2013 era sob a batuta do maestro holandês, que chegou a ser eleito o melhor jogador daquele Carioca. No Botafogo, ele herdou a camisa 10 e jogou mais adiantado do que em outros momentos da carreira. E se deu bem.

Tanto que nunca havia feito tantos gols antes por um clube: foram 24 em 81 jogos. Com uma liderança intrínseca, foi peça chave na mescla que deu resultado entre a experiência e a juventude de nomes como Vitinho, Dória e Gabriel por exemplo.

Pós-Montillo: o time que se transformou no exterminador de campeões da Libertadores e passou em primeiro lugar no grupo da morte teve pouco da batuta do argentino. O meia não conseguiu jogar tanto a ponto de criar uma "Montillo-dependência" na equipe.

Pelo contrário, ele não encaixou com Camilo no meio de campo, que rendia melhor com um ou outro. Acabaram se revezando por problemas físicos, mas o gringo teve mais lesões e ficou muito mais tempo fora, por isso o Alvinegro aprendeu a jogar sem ele.



Momentos marcantes de Seedorf em um ano e meio de Botafogo (Foto: Infoesporte)


4) FINANÇAS

Pós-Seedorf: para muitos, o holandês representou um custo que o clube não podia assumir. Seedorf ficou 17 meses em General Severiano ao custo de R$ 18 milhões, o que representa mais de R$ 1 milhão por mês, com 100% da remuneração paga pelo Botafogo – o dinheiro da Puma, na época, servia só como garantia em contrato.

O Alvinegro teve ganhos de imagem e de receita, como o aumento do sócio-torcedor de oito mil para 18 mil pessoas, mas as despesas eram maiores. Aliado ao fechamento do Nilton Santos, então chamado de Engenhão, perdeu grande parte da receita e passou a atrasar salários. Foi o ano em que o time emocionava o seu torcedor, mas se desestruturava fora de campo.

Pós-Montillo: o argentino foi também o maior investimento da atual gestão, mas recebia pouco menos da metade do que ganhava o holandês na época. O meia nunca "pesou" aos cofres do clube a ponto de influenciar na folha e acarretar em atrasos de salário do elenco.

Nos seis meses em que esteve em General Severiano, o clube também não conseguiu explorar muito a imagem do gringo para geração de receitas, embora sua chegada tenha proporcionado papel importante de autoestima, levando à quebra do recorde de sócios-torcedores, atualmente em pouco mais de 32 mil. Montillo representou um gasto de cerca de R$ 2,5 milhões, mas pode ser considerado uma aposta de risco calculado.


5) CONTRATAÇÕES

Pós-Seedorf: o que teoricamente poderia representar um alívio na folha, não se concretizou na prática. O dinheiro economizado pela saída do holandês já estava comprometido com as dívidas com o próprio elenco, com muitos salários atrasados.

Mesmo sem dinheiro, a diretoria da época foi ao mercado para encorpar o time para a Libertadores. Chegaram Jorge Wagner, os argentinos Ferreyra e Bolatti, Wallyson, Junior Cesar, Airton, Rodrigo Souto e os gêmeos laterais Alex e Anderson – todos, sem exceção, estavam na reserva de suas equipes.

Pós-Montillo: o cenário atual não chega a ser muito melhor em termo de elenco – o time mais perdeu do que ganhou jogadores para o segundo semestre com as saídas de Canales, Joel, Sassá e do próprio Montillo.

Ao menos, não aumentou a dívida, que segue parcelada. Só que o suposto alívio na folha salarial também tem parte comprometida com pagamento de débitos. Por isso, a diretoria encontra dificuldade para contratar.

Dirigentes internamente falam em ter "uma bala" e não poder errar, mas a tendência é que cheguem ao menos um meia e um atacante. A bola da vez é o chileno Leo Valencia, do Palestino.



Fonte GE/Por Marcelo Baltar e Thiago Lima, Rio de Janeiro