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sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Após novas críticas, Anderson Barros diz: 'Cansei de apanhar calado'


Gerente responde a Montenegro, fala de atritos, de empresários e diz que, se sair do Botafogo, vai ser pela porta da frente




Anderson Barros rebate críticas de Montenegro
(Foto: Fábio Castro / Agência AGIF)
A cena já se repetiu três vezes desde que Maurício Assumpção assumiu a presidência do Botafogo. Assim que o time perde, o ex-presidente Carlos Augusto Montenegro liga sua metralhadora e mira um alvo específico: o gerente de futebol Anderson Barros. Cansado das críticas do antigo mandatário, o gerente de futebol resolveu rebater.

A primeira vez que Montenegro criticou Barros foi em 2010. Após uma derrota para o Vasco por 6 a 0 pela Taça Guanabara, ele reclamou da contratação de Loco Abreu em vez de Dodô. Depois disso, o Alvinegro trocou de técnico e foi campeão da competição com dois gols do uruguaio, que ainda deu a famosa cavadinha na conquista do título carioca.
Se for sair, vou sair pela mesma porta que entrei: a da frente. Não aceito fritura e coisas pelo lado. Se quiserem sentar comigo e dizer que o trabalho não deu resultados, posso achar injusto, mas tudo bem. "
Anderson Barros, gerente de futebol

Em seguida, após uma série ruim no Brasileiro, em julho deste ano, Montenegro deu nova pancada. E na última quinta-feira, após a terceira derrota consecutiva, repetiu a dose ao dizer que Anderson Barros tinha errado no planejamento mais uma vez.

A posição do gerente de futebol no clube não é confortável. A relação com o presidente Maurício Assumpção - muito boa no passado - se desgastou. E um atrito com o ex-coordenador da base Sidnei Loureiro, homem de confiança de Maurício, agravou a situação.

O presidente desconversa, mas já decidiu pela saída do gerente no fim do ano. Nos bastidores do clube, dirigentes confimam que a tendência é a promoção de Loureiro para 2013. Ele pertence à "turma da praia" - amigos próximos que Assumpção trouxe ao desembarcar no Botafogo, depois de ter trabalhado no Barra Futebol Clube.

Anderson Barros, que raramente dá entrevistas, não quer falar sobre o futuro. Mas, em meio a tanto desgaste, resolveu falar ao GLOBOESPORTE.COM sobre o presente e as acusações de Montenegro.

O Botafogo cometeu erro de planejamento em 2012?

Erro de planejamento não. Talvez erro estratégico. O número de atacantes? Talvez tenha faltado um. Mas falar em erro de planejamento? Se dizem que falta um zagueiro e um atacante é porque temos estrutura, certo? Hoje temos o quarto ataque do campeonato. E a décima pior defesa. Temos mais problemas com gols sofridos do que com marcados. Perdemos no setor defensivo quatro jogadores por lesão - Antonio Carlos, Marcelo Mattos, Brinner e Lucas Zen. Contra o Santos, tinhamos um atacante em campo, um no banco e um não relacionado. Depois do Joel (Santana) em 2010, o Botafogo sempre jogou com três meias e um atacante. Herrera jogava como meia com o Caio Junior. O Oswaldo manteve um esquema parecido.

Mas e atacante? Quando o Herrera saiu, não veio substituto.

A saída do Herrera foi inesperada. A gente estava armando para renovar com ele uma semana antes. Mas chegou uma proposta do mundo árabe irrecusável. O jogador queria ir, era uma oportunidade de realização e ele sempre foi um profissional exemplar. Seria injusto impedir. Trouxemos um substituto indicado pela comissão técnica e aprovado pelo comitê gestor, que foi o Rafael Marques. Infelizmente, ele teve uma lesão e não foi bem até agora, é verdade. Mas ele tem mercado na Ásia e na Arábia e merece uma chance. Aqui a pressão está grande em cima dele.

O Rafael não foi um erro?

Contratar não é uma ciência exata. A gente faz de tudo pra acertar, mas há sempre um risco envolvido. Não são máquinas, são homens. Se foi um erro, foi de todos nós. Toda contratação no Botafogo é aprovada pelo comitê gestor, composto pelo gerente, o vice geral Paulo Mendes, o diretor executivo Sérgio Landau, o diretor financeiro Marcelo Murad, o conselheiro Roberto Costa e o vice de futebol, que na época era o presidente. A comissão técnica indicou o Rafael Marques. Eu dei o parecer favorável e aí me dizem hoje que eu deveria ter vetado, como já vetei outros. Mas todos aprovamos. E a conta é só minha. E as outras, que aprovamos e deram resultado? Quem trouxe o Herrera e o Loco Abreu? Quem contratou o Renato, o Elkeson, o Andrezinho, o Felyppe Gabriel, o Antônio Carlos, o Jefferson, o Lucas, o Cortez? Quando compramos o Cortez por 1 (milhão de reais) e vendemos por 6 faltou planejamento também? É complicado botar na conta de um profissional apenas.

Montenegro apoiou a reeleição de Assumpção 
àpresidência (Foto: Fabio Leme / Globoesporte.com)
De todo modo, sua imagem ficou desgastada.

Minha imagem é desgastada porque sempre me acusaram de um monte de coisa e eu nunca quis falar. Achei que o trabalho falaria sozinho. Nos momentos mais delicados, assumi a responsabilidade. Mas ao apanhar calado prejudiquei minha família. Minha mulher na quarta-feira me ligou e disse que meu filho chorou quando a torcida me xingou. Para minha mulher falar isso... É uma criança de dez anos. As pessoas não sabem o que é isso. Eu nunca falei, nunca expus nenhum profissional, sempre assumi a culpa. Quando Montenegro me criticou há dois meses, liguei para ele e disse "Presidente, você sabe como funciona". Ele disse que entendia, me pediu desculpas, disse que ia consertar, que sabia que o problema não era eu. O time ganhou alguns jogos, tudo ficou calmo. Agora que voltou a perder, ele deu outra entrevista. Ele é torcedor, eu sei, mas cansei de apanhar em silêncio.

O Montenegro disse que a culpa da falta de planejamento é sua e que você é um gerente fraco...

Para falar só de atacantes, quem trouxe Abreu, Herrera, Caio e Jóbson? E Maicosuel? E Elkeson? Será que sou eu o culpado de tudo? Só eu e só dos erros? Nos outros clubes alguém lembra quem é o gerente? Quando o Flamengo perde, criticam a Patrícia e o Dorival. Quando o Vasco perde, o Cristóvão cai e você lembra o nome do gerente do Vasco? É o Daniel, bom profissional. Quando o Inter perde, é Piffero e Fernandão. No Botafogo, é sempre culpa do técnico ou do gerente. Mas tudo bem. Eu sempre trouxe para mim e protegi o presidente o vice de futebol. O Montenegro elogiou a base. Será que ele sabe como funciona essa integração? Que o futebol profissional é responsável pelo processo desde 2009? Que fomos nós que integramos o Jádson e o Gabriel? Que os jogadores precisam ser preparados aos poucos?

Mas todo ano a história não se repete? O time promete mais do que cumpre?

O Seedorf tem dito uma coisa: o Botafogo vai ganhar. Algumas peças vão ser ajustadas, mas se a essência não mudar, o Botafogo vai ganhar. Agora temos estrutura financeira, botamos quatro atletas na Seleção nos últimos três anos. E outros três agora na Seleção sub-20. Alguns clubes demoraram cinco, seis anos para dar a virada. Se o time parece que vai chegar, é porque algo está sendo feito. Antes não chegava nem perto, brigava para não cair. Podíamos ter contratado mais um atacante? Podíamos. Trouxemos o Bruno Mendes, que é 94, tem 18 anos. O Oswaldo acha que tem que prepará-lo mais, mas é um ativo para o Botafogo. Na quinta-feira, fez dois gols no treino.
Houve um problema de conceitos e especialmente de procedimentos. (...) (Sidnei Loureiro) Sugeriu trocar alguns profissionais e por isso teve um atrito com a comissão técnica. Contornamos, mas ficou uma situação difícil."
Anderson Barros, gerente de futebol

Você diz que antes o clube brigava contra o rebaixamento. Mas também brigou em 2009.

Quando chegamos em 2009, o Botafogo não tinha nada. Não tinha elenco, nem base, nem recurso nem credibilidade. Tínhamos quatro atletas - dois para renovar - Leandro Guerreiro, Alessandro, Renan e Milton Raphael. Quatro meses e meio de salários atrasados. Formamos um time a duras penas, ganhamos a Taça Guanabara e perdemos a final nos pênaltis, com os dois melhores jogadores do time machucados (Maicosuel e Reinaldo).

Como vocês montaram o time então sem dinheiro?

Buscamos parceiros no mercado. E trouxemos quem conseguimos. Fahel, Maicosuel, Reinaldo, Victor Simões... Fomos atrás de credibilidade. As pessoas marginalizaram a figura do empresário e isso é um equívoco. Os atletas estão vinculados a empresários ou representantes e você tem que conversar com eles. Você não paga 10% na conta do restaurante? O empresário existe. Negócios no futebol tem intermediação. Claro - como em toda profissão - há empresários que fazem coisas incorretas, mas são minoria.

Você foi acusado de ter negócios com empresários - especialmente o Eduardo Uram.

Isso é uma leviandade, uma indignidade. Pergunte a qualquer agente, qualquer profissional que já tenha conversado ou negociado comigo. Pergunte a qualquer atleta que já tenha trabalhado comigo se eu já tive um procedimento incorreto. Um só. É um absurdo falarem isso. E falam sem saber, jogam a honra da pessoa no lixo sem responsabilidade. Sabe quantos jogadores o Uram representa no profissional do Botafogo? Dois. O Lucas e o Felyppe Gabriel. O Carlos Leite tem dois. Reinaldo Pitta tem zero. Jorge Moraes? Um. Cláudio Guadagno e Giovanni Bertolucci? Um cada. Sandro Becker? Dois. MFD? Três. E são parceiros. A MFD podia ter levado o Jádson para outro time - o Botafogo não tinha dinheiro na data pra comprar. Mas estenderam o prazo porque sabem que fazemos as coisas certas. Nós temos relações, porque é assim que funciona o mercado. Se você não trabalhar com o representante do atleta, não contrata. Quando fomos trazer o Elkeson, o Fluminense estava na frente. Sabe o que o representante do jogador me disse? "O Botafogo é o último da nossa linha de crédito. Se você não trouxer um avalista, não tem negócio". Liguei para o presidente do Corinthians - o Andrés Sanchez - e botei ele na linha com o representante. O Andrés, que conheço há muito tempo, disse "Pode fazer o negócio". Por que? Porque nesse negócio credibilidade e palavra são fundamentais. O Elkeson hoje vale pelo menos seis milhões de euros. Foi mau negócio?

Mas voltando a 2009 - o time foi muito mal no Brasileiro e quase caiu...

Sim. E Deus sabe, ou melhor, o presidente sabe o que eu fiz para o time não cair. Quem foi brigar contra o Flamengo e com o Luiz Estevão para contratar o Jóbson? Ganhamos a briga e ele fez diferença. Depois aconteceu o que aconteceu. Em 2010 fomos campeões estaduais trazendo o Loco e o Herrera. E fomos bem no Brasileiro até o momento em que perdemos quatro titulares por lesão: Marcelo Mattos, Maicosuel, Fábio Ferreira e Herrera. Ainda assim tinhamos chance de Libertadores na última rodada.

2010, 2011... não é muito quase?

O orçamento do Botafogo... É difícil mas as pessoas tem que entender. Como comparar um orçamento de R$ 250 milhões com um de R$ 60 milhões? Em janeiro tentamos trazer o Jean - que estava no São Paulo - jogador do Uram. Mas o Fluminense fez uma proposta muito melhor e não tivemos como competir. A diferença existe. O Botafogo tem um orçamento menor, um passivo maior e cobrança igual aos outros. Dos 12 grandes, o Botafogo é o que menos arrecada e olha que melhoramos muito. A camisa se valorizou, temos ativos. Com isso, fizemos investimentos e estamos desde 2010 brigando entre os sete primeiros. Agora caímos pra oitavo, mas estamos ali. No ano passado estávamos na briga do título até perdermos para o Figueirense em casa e o time se desestabilizar.

Sidnei Loureiro (esquerda) pode assumir lugar
 deBarros (Foto: Thales Soares / globoesporte.com)
E por que se desestabilizou?

Acontece no futebol. O Palmeiras com Muricy em 2009, o Fluminense com Abel em 2005. Não encaixou, as coisas deram errado. E o Botafogo é um clube de extremos. A paixão da torcida é algo fora do normal. A vitória e a derrota são extremos. A torcida tem uma alegria profunda com a vitória, mas sente a derrota como algo pessoal. É uma torcida muito passional que tem sofrido com a falta desse título nacional, eu sei. E olha, em 2010 ficamos em sexto e foi a melhor colocação do clube desde 1995. A situação do clube é de crescimento mesmo como disse o presidente, mas a cada derrota nossa parece que precisamos fazer mais força para levantar.

Houve um atrito com o supervisor Sidnei Loureiro?

Houve um problema de conceitos e especialmente de procedimentos. Eu sugeri ao presidente que ele viesse da base. Em maio ele veio, mas trouxe muito abruptamente algumas coisas. Sugeriu trocar alguns profissionais e por isso teve um atrito com a comissão técnica. Contornamos, mas ficou uma situação difícil. Dias depois o presidente me informou que ele tocaria projetos especiais, como o gol 1000 do Túlio.

O que se comenta é que ele será o escolhido para o seu lugar.

Quando assumi o profissional do Flamengo em 2005, o George Helal me disse: "Não aceite porque você não está pronto". Eu aceitei e foi um erro. Não estava pronto. Quando sugeri ao presidente para trazer o Sidnei a ideia era prepará-lo, mostrar os caminhos, apresentar relações. Houve o problema, ele saiu, não deu tempo de acontecer nada. Sobre entrar no meu lugar, isso não é comigo.

Você avisou aos atletas que vai sair no fim do ano?

Não avisei nada. Não vou entregar o cargo, não vou pedir demissão. Não posso deixar atletas e funcionários na mão. Tenho palavra com os atletas. Muitos vieram para cá porque acreditaram em mim. Se for sair, vou sair pela mesma porta que entrei: a da frente. Não aceito fritura e coisas pelo lado. Se quiserem sentar comigo e dizer que o trabalho não deu resultados, posso achar injusto, mas tudo bem. O vice de futebol, Chico Fonseca, me disse que o desgaste pode levar a isso. Tudo bem, só quero que seja assim, que me digam pela frente. Temos uma série de compromissos assumidos a honrar este ano e vou honrá-los.

Que compromissos?

As pessoas não sabem... temos que buscar recursos. E temos que ser criativos, porque a situação financeira exige. No fim do ano passado fomos ao mercado e conseguimos captar R$ 5 milhões para fechar o ano através da cesta de atletas. Botamos preço no percentual de atletas para ter recursos e fluxo de caixa. Pegamos um empréstimo e damos, por exemplo, 20% fracionados de alguns atletas como garantia. O banco sabe que vai receber e ganha nos juros. Com isso conseguimos pagar salários em dia. Esse ano estamos montando operações semelhantes. Não sei se todo gerente de futebol tem que fazer isso. Sabemos no clube que não é a situação financeira ideal. Mas se não fizermos isso, não conseguimos rodar. Hoje o Botafogo, felizmente, tem ativos para fazer esse tipo de negócio. Antes não tinha.


Em jogo pelo Figueirense, Loco beijou o escudo 
do Botafogo (Foto: Reprodução / Rede Globo)
Por que o Loco Abreu saiu?

Porque ele quis, e não apenas ele. Mais gente queria, achava que o ciclo dele havia terminado. O Oswaldo tinha boa relação com ele, só temia que ele não aceitasse bem a reserva. Mas há boa chance de ele voltar em janeiro de 2013. Se o Figueirense cair, ele se reapresenta ao Botafogo.

E o Seedorf? A chegada dele mudou o time?

Ele traz coisas que as pessoas nem desconfiam. Possibilidades de mercado, negócios. É um jogador que já ganhou tudo o que poderia ganhar e ainda assim detesta perder qualquer jogo. Você precisa ver como ele ficou depois da derrota contra o Santos. Por outro lado, ele sabe que estamos no caminho certo, que o Botafogo tem que manter o rumo. Dar a volta por cima não é rápido. As pessoas esquecem que o Internacional, antes de conquistar tudo, esteve a uma rodada de ser rebaixado em 2002. Quanto tempo o Chelsea demorou com todo aquele investimento para ser campeão? E o Manchester City? Se o Botafogo continuar organizado, aqueles que tem interesses outros não vão entrar. E a coisa vai caminhar.

Interesses outros?

É. Tem muita gente que olha o futebol como uma oportunidade. O mercado do futebol tem muito dinheiro. E há quem caia em tentação. Mas tenho fé que vamos continuar no caminho certo.

Você fica no clube em 2013?

Essa pergunta é para o comitê gestor e para o presidente...

Por Thales SoaresRio de Janeiro


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