terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Por que caiu? Caiu por quê? Dossiê Botafogo II: 2013, o ano da ilusão


Campeão estadual, líder do Brasileiro, Seedorf e vaga na Libertadores. O ano em que o Botafogo emocionava o seu torcedor, mas se desestruturava fora de campo




Na segunda reportagem da série, o GloboEsporte.com entra no ano de 2013, quando o Botafogo parecia crescer como nunca no futebol. Com Seedorf como estrela da companhia, o time conquistou o título estadual sem precisar de final, vencendo os dois turnos. Começou o Campeonato Brasileiro jogando como favorito e abrindo frente. Fora de campo, porém, os problemas se acumulavam. O clube viu o Engenhão ser interditado e começou a perder jogadores e atrasar salários.

O ano marcou um novo estilo na administração do futebol profissional. Sidnei Loureiro, antes gerente da base, assumiu ao lado do vice-presidente Chico Fonseca. O cargo de Sidnei era gerente técnico, e em tese ele seria par do gerente de contratos Aníbal Rouxinol II. Mas Sidnei era, na realidade, o homem-forte do clube a partir de então.

1 - A ascensão de Sidnei

Homem de confiança de Assumpção, amigo do presidente desde os tempos de Copacabana, parceiro no curso de gestão esportiva, Sidnei Loureiro começou a planejar o novo desenho do futebol no fim de 2012, depois da "queda de braço" com Anderson Barros. Ele deixou Barros até o fim do ano – já sabendo que voltaria – e começou a traçar como funcionaria a nova estrutura em reuniões com Chico, Aníbal e outros assessores.

O Botafogo foi a grande oportunidade de Sidnei no futebol. Até trabalhar no clube, ele teve chances apenas em clubes de menor expressão, como Rodoviário de Piraí e Barra Futebol Clube (hoje desativados), além do Nova Iguaçu, onde foi técnico dos juvenis em 2001. Depois disso, trabalhou em times amadores da Espanha, um dos quais tinha convênio com o Real Madrid, e fez cursos de gestão e marketing esportivo. Em 2008, de volta ao Brasil, montou uma produtora de vídeos, a Sports Filme, que chegou a fazer um DVD comemorativo dos 1.000 gols de Romário.

A eleição de Maurício Assumpção mudou a história de Sidnei Loureiro. Amigo do presidente das peladas de praia, ele entrou no Botafogo em janeiro de 2009 como coordenador técnico da base. Rapidamente virou gerente e passou a chefiar o departamento. Na base, ganhou dois títulos estaduais: o sub-15 de 2009 e o de juniores de 2011 (troféu que o Botafogo não ganhava há 11 anos). Em seu currículo, lista também uma série de vitórias em curtos torneios internacionais entre 2009 e 2012.

Na prática, a troca tinha sido Anderson por Sidnei, que mandava mais do que todos os outros. Nos bastidores, cuidando de prospecção e também de contratos, Bernardo Arantes se tornou "assessor executivo", com salário de R$ 21 mil. Sidnei não parecia acreditar que sua inexperiência em relação a jogadores profissionais seria um problema. 

Sidni Loureiro em entrevista coletiva: amigo da "Turma da Praia" cresce no Botafogo(Foto: Satiro Sodré/SSPress)

2 – Henrique

O primeiro grande investimento da nova gestão do futebol foi no ataque: o Botafogo acertou pagar R$ 3 milhões pelos direitos de Henrique, que estava na reserva do rebaixado Sport de 2012. Nos bastidores do clube, para justificar a contratação do atacante que tinha passagem por seleções de base, o tom era de comparação:

– Ele é novo e tem potencial elevado. Não é como Rafael Marques, jogador em fim de carreira e desconhecido – disse um dos mandatários do clube em janeiro de 2013.

Henrique foi muito mal no primeiro ano, não se firmou e acabou emprestado em 2014 para o Bahia, onde também ficou na reserva e jogou muito pouco num time que também foi rebaixado. O jogador tem contrato com o Botafogo até dezembro de 2016, com salários de R$ 120 mil.

Henrique se apresenta: contratado por R$ 3 milhões, atacante não rendeu (Foto: Thales Soares/GLOBOESPORTE.COM)
3 – Campeão estadual

O clube começou 2013 com um departamento de futebol modificado. Loureiro trouxe da base alguns homens de confiança, mas não mexeu muito na estrutura de trabalho de Oswaldo de Oliveira. Chico Fonseca tentou contratar Dagoberto. Não conseguiu. Acertou com dois jogadores que estavam em baixa no mercado,o zagueiro Bolívar e o lateral Júlio César – este último uma indicação de Loureiro.

Chico não tinha o respaldo dos jogadores. Já durante o estadual começou a ficar evidente a falta de controle. Antes de um jogo contra o Madureira, o time iniciou uma manifestação por conta do atraso de salários. Os jogadores anunciaram que não iriam se concentrar. A temporada inteira teria nesse tom, e com o apoio de Oswaldo, que tinha a confiança do grupo.

O time começou de forma irregular a Taça Guanabara. Bruno Mendes, que terminara 2012 como promessa, teve forte queda de rendimento e abriu espaço para o retorno de Rafael Marques. Com o time entrosado e arrumado, Rafael começou a jogar muito bem como "falso 9" e a fazer gols. Com Fellype Gabriel e Lodeiro pelos lados e Seedorf centralizado, a equipe ganhou uma cara. Venceu a Taça Guanabara com gol de Lucas, e conquistou o estadual com um gol de Rafael Marques. Oswaldo, ao falar nas rádios, não esqueceu dos antigos parceiros.

– Queria agradecer àqueles que nos ajudaram e não estão aqui, como o André Silva e o Anderson Barros.

Rafael Marques: de "pior contratação de todos os tempos" a herói de título carioca (Foto: André Durão / Globoesporte.com)

4 – Engenhão

A interdição do Engenhão, em março de 2013, pegou todos no clube de surpresa. E paralisou uma negociação com a Caixa Econômica Federal, que cogitava comprar os naming rights do estádio. A interdição do estádio acabou servindo também como desculpa para o fracasso financeiro. Assumpção deu várias entrevistas dizendo que o Botafogo perdeu "R$ 30 milhões". Mas, na verdade, a conta de 2012 não mostra isso. O lucro do clube com o estádio foi de R$ 4 milhões, sendo que R$ 1,8 milhão foi pago em comissões para a Pepira, empresa que o clube contratou para viabilizar o estádio.

– O que acontecerá agora com a reabertura do estádio e coexistindo com Maracanã? Se for empate temos que festejar. O Engenhão vai servir como nossa casa na Série B e pode resgatar o amor da torcida. Mas como gerador de recursos não é essa maravilha – diz um membro da nova diretoria.

A eventual venda dos naming rights poderia trazer recursos, mas vale anotar que em 2012 o Maracanã estava fechado. Ou seja, o Botafogo lucrou também com jogos de Flamengo e Fluminense no local, sem falar nos clássicos cariocas. Verdade também que o Engenhão, aberto, poderia oferecer concorrência para as altas taxas do Maracanã – o que poderia explicar o interesse recente da Odebrecht, principal sócia do Consórcio Maracanã, na gestão compartilhada do estádio.

Fechamento do Engenhão pegou a diretoria do Botafogo de surpresa: baque nos rendimentos (Foto: EFE)
5 – Crise de autoridade

A falta de comando da diretoria se tornava a cada dia mais evidente. Na véspera da estreia do Brasileirão, o grupo se recusou a viajar para a partida contra o Corinthians, alegando atrasos salariais. Embarcou apenas no dia. Dentro de campo, porém, os jogadores continuavam a render. O time começou o Brasileirão em alto nível. Empatou fora com o Corinthians e ganhou partidas em sequência, chegando a abrir quatro pontos na liderança. Depois de uma vitória sobre o Vasco por 3 a 2, Oswaldo desabafou contra os críticos de 2012.

– Que golaço do Rafael Marques, hein? Que golaço do Rafael Marques – repetiu Oswaldo na coletiva após a partida, mencionando o terceiro gol decisivo (assista à reportagem do Globo Esporte no vídeo abaixo).




Nos bastidores, porém, as sementes do caos germinavam. O grupo tinha autoridade total sobre o vestiário. Sidnei Loureiro tinha se aproximado dos jogadores no início, compartilhando com os líderes do elenco diversas decisões – como viagens, hotéis e decisões logísticas. Mas, quando os salários atrasaram, ele se perdeu em promessas que não conseguia cumprir.

– Fomos perdendo a confiança nele. Ele prometia coisas que não chegavam – diz um jogador que deixou o clube em 2014.

– Ele tentou ser amigo dos jogadores. Quando não pôde cumprir o que prometia, eles deitaram – diz um ex-membro da comissão técnica.

A "falta de cobrança" tão criticada na gestão Anderson Barros tinha se transformado na ausência completa de autoridade. O domínio dos jogadores no vestiário esbarrava apenas em Oswaldo. Bolívar era a principal liderança – respeitada até por Seedorf – e reclamava quase diariamente dos atrasos.

Jogadores festejam com a torcida: vitória sobre o Vasco e vantagem na liderança (Foto: Márcio Mercante / Agência Estado)

6 – Clarence "Deus"


Seedorf não tinha vindo ao Brasil apenas para jogar. Tinha vindo em busca de oportunidades e contatos. Foi visto treinando jogadores jovens fora do horário. Trazia propostas de patrocínio para o clube (uma delas, da Emirates Airlines).

– O "negão" pensa em trabalho 24 horas por dia – comentava um dirigente.

E, no vestiário, tinha um outro tipo de atividade. Seedorf sondava alguns jogadores para assinarem contratos com seus parceiros comerciais. Fellype Gabriel, por exemplo, deixou Eduardo Uram e fechou com agentes ligados a Seedorf - Bruno Paiva e Marcelo Robalinho. Vitinho e Gabriel também foram sondados. Isso irritava os dirigentes e empresários. Mas quem iria peitar Seedorf?

– Ele se acha Deus – comentava Chico Fonseca.

Gabriel passou a ser agenciado pelo grupo ligado a Seedorf. Assim como o lateral-direito Edílson, um dos grandes amigos do holandês no elenco.

Seedorf orienta Vitinho: holandês direcionou alguns para seus parceiros comerciais (Foto: Jorge William / Ag. O Globo)
7 – A turma da praia

O presidente nunca escondeu que levou para o clube amigos do futebol de areia de Copacabana. No primeiro mandato, os praianos ficaram apenas na base. Com a ascensão de Loureiro, a base começou a invadir o profissional. Ayrton Mandarino (capitão e volante do América do Lido, um dos times da praia de Copacabana que ligavam Mandarino, Loureiro e Assumpção) pulou de gerente comercial da base para diretor comercial do clube. Foi responsável pelo célebre contrato de "patrocínio" com a Telexfree (empresa proibida de atuar no Brasil e que foi fechada nos EUA durante o contrato) e recebeu bônus de R$ 150 mil em 2014 por ter superado meta de vendas. O Conselho Fiscal do clube estranhou o bônus, pois considerou que a meta foi estipulada depois de fechados todos os contratos e incluia também o contrato da Viton - que já tinha comissão paga. O CF recomendará ao Conselho Deliberativo que peça o ressarcimento dos valores pagos aos cofres do clube.

Outros membros da turma da praia que entraram no Botafogo: Guga, roupeiro da base; Guguinha, analista financeiro; Johnny Rodrigues, coordenador de relações e contratos; Dilson, o Bui, responsável pelo quadro administrativo do Engenhão; Bernard Shaw, administrador do Caio Martins; Ricardo Stockler, técnico de times na praia e que ocupou por curto período o cargo de treinador do juvenil alvinegro; José Mendonça Neto, o "Neto Mendonça", fisioterapeuta; Ney Souto, gerente das categorias de base. E Rodrigo Souto, irmão de Ney, contratado em 2014 egresso da reserva do rebaixado Náutico.

Em maio de 2013, o presidente falou sobre a relação com os amigos da praia para a coluna "A pelada como ela é", de Sérgio Pugliese em O GLOBO:

– Com amigos de verdade, e ainda por cima talentosos, não temos limite.

Ayrton Mandarino também falou para a coluna.

– Continuamos o time entrosado de sempre, e com cada um apresentando resultado em suas áreas – disse.

Os amigos de Maurício Assumpção no futebol de praia, em Copacabana (Foto: Arquivo Sergio Pugliese)

8 – Isolamento político

Com o agravamento da crise financeira, Assumpção começou a ficar isolado politicamente. O grupo de Montenegro, que havia sido fiador de sua eleição, começou a se afastar. O Mais Botafogo, liderado por Carlos Eduardo Pereira, brigava com o presidente na justiça. A ideia de transformar o gramado de General Severiano num campo sintético provocou a ira de cardeais queridos no clube como Manoel Renha e Cláudio Good.

Os ex-jogadores homenageados começaram a se afastar também. Carlos Alberto Torres, que deixou de receber R$ 14 mil como embaixador do Engenhão quando o estádio fechou (e tinha conseguido a cessão de um novo ônibus para o clube) começou a se aproximar da oposição. Jairzinho seria outro que se afastaria da gestão com a demissão do filho (Jair Ventura). Túlio brigava publicamente com o presidente.


9 – Família próxima

O irmão de Maurício Assumpção, Luiz Alberto Salles Assumpção, postou em sua conta do facebook um ingresso da final da Copa do Mundo com chancela da CBF. Outro irmão, Marcelo, havia trabalhado no clube como repórter e tinha sido sócio da Romar, empresa da família Assumpção. Depois foi trabalhar na CSM, empresa que gerenciava a conta de Sócio-Torcedor do clube. Outro parente, o tio de Maurício, Mário Salles, também foi contratado pela CSM. A assessoria da CSM explicou suas funções:

"Marcelo Assumpção, ator e formado em coreografia, foi contratado para auxiliar a CSM no gerenciamento das aparições do mascote antes e durante a Copa do Mundo. Mario foi responsável pela logística montada para a Federação de Futebol da Austrália. Ambos passaram por um rigoroso processo de seleção e fazem parte do efetivo de mais de 15 mil pessoas que atuou com a CSM em projetos envolvendo o Mundial"

Além disso, Mário foi sócio da Finder Soluções Corporativas - empresa de consultoria - que até hoje diz contar em seu site com o Botafogo como cliente. O site tem até uma frase de Maurício Assumpção como exemplo de parceria:

“...Todo gestor precisa focar na busca por melhores resultados, sem dúvida, parceiros como a Finder nos ajudam, e muito, na melhora de nossos resultados...”.

10 – Acabou o dinheiro

A pausa para a Copa das Confederações marcou o início da derrocada técnica e institucional. O dinheiro estava no fim. Fellype Gabriel e Andrezinho saíram, sem reposição de jogadores, e a Receita Federal começou a penhorar os recursos alvinegros. O valor da transferência de Fellype Gabriel ficou preso. O clube conseguiu uma liminar que limitava as penhoras a 5% dos recursos.A situação com o TRT também começou a piorar. As penhoras se amontoavam.

Maurício Assumpção, que se orgulhava de pagar as dívidas de presidências passadas (até então algo perto de R$ 100 milhões), começava a produzir dívida nova. Para se financiar, o clube precisava vender futuro. Antecipações de cotas televisivas, de patrocínio e de uniforme eram a regra. Maurício apostava na vinda do Proforte – e esperava por ele desde 2012. Mas ele não saía. E a operação do clube começava a ficar inviável.

Fellype Gabriel e Andrezinho no treino: dupla deu adeus e não houve reposição (Foto: Guilherme Pinto / Ag. O Globo)
11 – O Caso Vitinho

Sem Fellype Gabriel, Oswaldo lançou o garoto Vitinho como titular, e sua entrada no time evidenciou a inexperiência da gestão do futebol profissional. Ele era a maior promessa do clube desde 2012, mas tinha quebrado o pé numa pelada e ficado seis meses parado. O clube cuidou dele e achou que o jogador levaria isso em conta ao renovar seu contrato. No início da temporada, Vitinho recebeu a promessa de passar de R$ 6 mil para R$ 15 mil em janeiro de 2013, mas começou a conviver com jogadores com salários bem mais altos.

Após a atuação da revelação na semifinal da Taça Guanabara, em maio de 2013, seu pai foi até General Severiano pedir aumento. Vitinho queria três anos de contrato com R$ 50 mil de salário no primeiro ano, R$ 70 mil no segundo e R$ 90 mil no terceiro. O clube fez jogo duro. Um mês depois, em julho, a promessa era titular fazendo a diferença e chamando atenção. Ambidestro, ele finalizava de longe com rara precisão.

Vendo a valorização, o clube resolveu aumentar seu salário. Mas era tarde. A Traffic, que cuidava de sua carreira, disse que não aceitava mudar a multa rescisória. A multa era de 10 milhões de euros. O Botafogo queria aumentá-la para 30 milhões, mas não teve sucesso. Na semana do jogo decisivo contra o Cruzeiro, o clube viu Vitinho deixar a concentração após uma derrota para o Atlético-PR, em Curitiba, e seguir para a Rússia. A última cartada da diretoria foi oferecer R$ 250 mil mensais – cinco vezes mais do que os R$ 50 mil pedidos pelo pai do atleta três meses antes. Vitinho preferiu a Rússia.

– Ele foi ganhar R$ 500 mil em dia, sem falar nas luvas. Aqui eram R$ 250 mil que iriam atrasar todo mês – disse uma pessoa ligada ao jogador e que acompanhou a negociação.

Vitinho enfrenta o frio da Rússia: Botafogo perdeu sua revelação (Foto: Reprodução / Site oficial do Cska)
12 – Protestos públicos

Mesmo com o dinheiro de Vitinho, os salários continuavam a atrasar. O time, muito enfraquecido, patinava no Brasileiro. Na Copa do Brasil, foi eliminado pelo Flamengo com uma goleada – o que piorou terrivelmente o clima. Os jogadores começaram a externar a crise e a entrar em campo com faixas anunciando atraso salarial.

Oswaldo começou a buscar peças de reposição em diversas direções e jogadores sem experiência – como Hyuri e Otávio – chegaram a virar titulares. O time caiu de produção no Brasileiro e ameaçou, mais uma vez, ficar fora da Libertadores.

Jogadores do Botafogo entram em campo com faixa de protesto por atrasados (Foto: Vitor Silva / SS Press)

13 – Proibido entrar dirigente

A falta de autoridade com os jogadores chegou ao auge no segundo semestre. Em agosto, após nova promessa não cumprida, os jogadores informaram que não aceitavam mais a presença da diretoria nos vestiários.

– É lugar de jogador – disse Seedorf.

Em outras palavras, os dirigentes foram sumariamente proibidos de entrar em dependências do clube pelos atletas. Apesar do recado, Maurício e Chico foram ao vestiário após uma vitória. Irritado, Seedorf passou ao lado deles, ainda nu, e falando alto.

– Já falei que não quero diretoria aqui. É lugar de jogador!

Maurício e Chico nada disseram. O constrangimento foi evidente.

Chico Fonseca e Bolívar: clima ficou ruim após promessas não cumpridas (Foto: Thales Soares / Globoesporte.com)
14 - A semente de Duda

Em setembro de 2013, no auge da crise salarial, o presidente Maurício Assumpção deu uma entrevista falando que o clube deveria investir na formação de novos treinadores de futebol. Que deveria investir na "prata da casa" também para comandar times. Para bom entendedor, o recado estava claro: o próximo técnico do time seria Eduardo Hungaro, homem de confiança de Sidnei Loureiro, com quem tinha trabalhado no Rodoviário de Piraí no passado.

Duda, aos 48 anos, tinha como única experiência profissional uma passagem anônima pelo Sertanense, time da terceira divisão de Portugal. O investimento preconizado por Assumpção, porém, ficaria apenas em Duda. Dois ex-técnicos dos juniores, Anthony Santoro e Jair Ventura, foram demitidos no fim de 2013 - apesar de terem mais currículo que Húngaro. Anthony tinha passagens pelas categorias de base de Flamengo e Fluminense. Jair já tinha passado por seleções de categorias inferiores.

Eduardo Hungaro durante treino: Maurício começa a sinalizar que dará chance ao treinador (Foto: Satiro Sodré)
15 – A vaga sonhada

Com muita dificuldade, o clube chegou à última rodada sem depender apenas de si para garantir a vaga na Libertadores. No Brasileirão, precisava vencer o Criciúma em casa e torcer para que o Goiás não vencesse o Santos no Serra Dourada. Os resultados vieram. O Santos derrotou o Goiás por 3 a 0, e o Botafogo venceu, com gol de Seedorf e 30 mil alvinegros no Maracanã. A vitória foi comemorada como um titulo, mas a classificação, ainda assim, não estava garantida.

O Botafogo havia terminado o campeonato em quarto lugar, o que asseguraria passagem à fase preliminar da Libertadores. Mas a Ponte Preta estava na final da Copa Sul-Americana, contra o Lanús. A conquista do título garantiria ao time de Campinas o lugar na principal competição do continente e tiraria a vaga alvinegra. Após empate em 1 a 1 no primeiro jogo, o time argentino venceu o segundo por 2 a 0 e faturou o título. O Botafogo, enfim, estava na Libertadores após 18 anos, o que ofuscou boa parte dos problemas estruturais que já eram evidentes.

Lodeiro comemora seu gol na vitória por 3 a 0 sobre o Criciúma: vaga na Libertadores (Foto: Vitor Silva / SS Press)

Por GloboEsporte.comRio de Janeiro