sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Terra de Heleno e excursões explicam paixão pelo Bota no interior de Minas


Cidade natal de ídolo e viagens à Zona da Mata criam laço entre clube e torcida. Seis dos sete municípios com mais curtidas alvinegras no Facebook são da região mineira




Heleno de Freitas nasceu em cidade da
Zona da Mata (Foto: Agência O Globo)
Tem muito botafoguense feliz com o retorno do time à Série A em um pedaço alvinegro de Minas Gerais. O mapa de curtidas feito pelo GloboEsporte.com em parceria com o Facebook deu um panorama nacional da concentração de torcedores dos clubes pelo Brasil na internet. E por mais que seja um clube nacional, o projeto mostrou a força do Botafogo na Zona da Mata mineira. Seis das sete primeiras cidades colocadas na concentração de curtidas do time são da região: Lima Duarte, Pirapetinga, Santos Dumont, Piraúba, Juiz de Fora e São João Nepomuceno.


Questões geográficas, esportivas e o fato do ídolo Heleno de Freitas ter nascido e passado boa parte da vida em um município da Zona da Mata ajudam a justificar o grande número de torcedores do clube da Estrela Solitária na região.


Quando se fala em torcida por times cariocas em Minas Gerais, a explicação mais óbvia é a proximidade com o Rio de Janeiro. A sexta cidade com maior concentração de curtidas alvinegras no mapa é Juiz de Fora, que fica a cerca de 180 km da capital fluminense. Conhecido reduto de botafoguenses, é o maior município da região.


A facilidade para percorrer distâncias permitia que o clube da Estrela Solitária fizesse excursões, pré-temporadas e jogos oficiais pela redondeza. A cidade preferida para isso sempre também era Juiz de Fora. Após a construção e inauguração do Estádio Municipal Radialista Mário Helênio, em outubro de 1988, as visitas alvinegras se tonaram frequentes, fossem para jogos amistosos contra equipes locais ou até mesmo para usar o apoio dos alvinegros do interior para fugir da pressão da torcida no Rio de Janeiro, quando a equipe lutava para escapar de rebaixamentos, como em 99, quando venceu a Portuguesa por 1 a 0, e em 2004, no empate diante do Vitória, em 1 a 1. Só que o time não vinha para Juiz de Fora apenas em momentos ruins. Em 2003, quando liderava a Série B do Brasileiro e vivia boa fase, o Glorioso colocou mais de 20 mil alvinegros no Mário Helênio e venceu o América-MG por 2 a 1. A última visita ao município, porém, foi com derrota. Em 2014, o Goiás mandou o duelo em Juiz de Fora e venceu o Glorioso por 2 a 0, pelo Brasileirão.


Quanto às pré e inter-temporadas, na última década o Botafogo foi duas vezes para a região. No início dos anos 2000, a equipe fez a preparação para o Estadual em Cataguases. Em 2006, depois de ter sido campeão Carioca, o Fogão aproveitou a pausa do Brasileirão e retornou a Juiz de Fora para um período de treinos. Na época, o time do técnico Cuca ficou duas semanas na cidade e fez dois jogos contra Tupi-MG e uma seleção formada por destaques do interior, que disputaram o Campeonato Mineiro. Vitórias por 4 a 3 e 3 a 0, respectivamente.


Bandeira alvinegra no canto da mesa
 confirma paixão de Mário Guerra pelo Botafogo

(Foto: Reprodução/Facebook)
Na visão do Doutor em Jornalismo Esportivo, ex-repórter de campo e botafoguense, Márcio Guerra, as idas do Botafogo a Juiz de Fora contribuíram para a paixão alvinegra não só na cidade, mas também na região. Porém, ele acredita que a influência da imprensa juiz-forana da época também justifica o tamanho da torcida do Fogão na Zona da Mata.


– Não existe nenhum estudo que explica essa paixão. Mas o Botafogo e os times do Rio de Janeiro vinham muito para Juiz de Fora nos anos 40, 50 e 60. Além disso, as rádios de Juiz de Fora, como a Industrial e a PRB-3, transmitiam muito do Maracanã, tinham cabines montadas lá e grande audiência na cidade. O rádio era o veículo da moda, e o Botafogo formou grandes equipes naquele período, o que atraía muito a atenção das pessoas. Daí em diante, as transmissões prosseguiram e a paixão dos botafoguenses foi passando de geração em geração, o que pode justificar o tamanho da torcida na região – explicou.


Quem participou de várias coberturas envolvendo o futebol carioca e o próprio Botafogo foi o jornalista Nelson Júnior. Botafoguense e repórter da antiga Rádio PRB-3, ele afirma que nas épocas de cobertura do Alvinegro passou a ser menos torcedor e mais jornalista. No entanto, mesmo levando com profissionalismo o acompanhamento das partidas do clube no Rio e em Juiz de Fora, Nelson guarda com carinho um momento, após a conquista do Carioca de 1989.

Nelson Junior (esq.) é figura certa em jogos do Botafogo (Foto: Reprodução/Facebook)

– Nós fizemos a cobertura da final contra o Flamengo em 89 no Maracanã e foi algo fantástico. Só depois do jogo que comemorei realmente como torcedor, pois estava transmitindo a partida e sempre fui muito profissional. Mas o que veio depois é o que me lembro com muito carinho. Algum tempo após a conquista, o clube veio a Juiz de Fora para um período de treinamentos. Na época, Emil Pinheiro era o presidente. Quando ele me viu, me reconheceu, já que fazíamos muitos jogos no Maracanã. Ele achava que nós fôssemos uma rádio do Rio de Janeiro, pela frequência com que transmitíamos nos estádios cariocas. Na oportunidade, eu fiz uma matéria com ele. Quando acabou, ele tirou um broche do blazer dele, com uma estrela, e me deu. Acho que foi uma prova de reconhecimento pelo trabalho. Tenho ele até hoje e guardo com muito carinho – contou.



SÃO JOÃO NEPOMUCENO: BERÇO DE ALVINEGROS

Estátua de Heleno de Freitas comprova como ídolo alvinegro é figura importante em São João Nepomuceno (Foto: Fellype Alberto)

Garrincha, Jairzinho, Túlio Maravilha: o número 7 sempre esteve em evidência na história do Botafogo. Curiosamente, a sétima cidade com maior concentração de curtidas do Alvinegro é São João Nepomuceno, município que reúne personagens importantes na história do clube.


O maior deles é Heleno de Freitas. Nascido e criado na cidade, o atacante foi um dos primeiros grandes ídolos da história do Botafogo e o principal "filho" de São João, com direito a estátua no centro da cidade. Prima de Heleno, Clélia de Freitas Botti, de 97 anos, conviveu com o craque durante a infância e afirma que o fato dele ter muitas amizades na cidade contribuiu para que a torcida alvinegra no município aumentasse quando ele acertou sua ida para o Botafogo.


Clélia de Freitas Botti, prima de
Heleno de Freitas
(Foto: Tamires Freitas/Arquivo Pessoal)
– Ele jogava bola o dia inteiro na rua com os meninos quando era criança, adolescente. Só dava alguma confusão quando quebravam alguma vidraça. Mas ele era muito querido, todos gostavam muito dele. Quando começou a jogar pelo Botafogo, no Rio, certamente a cidade começou a torcer por ele, pois ele e a família eram muito conhecidos na cidade – disse.

De acordo com Clélia, a fama de brigão e de um cara mal visto pelos adversários não se confirmava entre as pessoas de São João, onde existia um Heleno brincalhão, bem diferente do que muitos falavam.


– Na rua ele não brigava, levava tudo na brincadeira. Todos gostavam dele. Ele nunca foi de brigar com os amigos por causa de pelada, nunca foi. Mas quando ele entrava em campo, ele se transformava – lembrou.


O GloboEsporte.com também conversou com outra pessoa da família do ídolo alvinegro. Helenize de Freitas é sobrinha de Heleno, mas afirmou que, embora grande parte da simpatia da cidade pelo Botafogo parta do tio, um outro personagem também tem sua parcela de responsabilidade pelo fato da cidade ter muitos alvinegros.


Embora fosse gaúcho de nascimento, João Saldanha tinha laços fortes com a família são-joanense. Tio de Bebeto de Freitas, ex-presidente do Botafogo, que é primo de Heleno de Freitas, o jornalista fazia visitas frequentes ao município na década de 1950. Segundo Helenize, a figura do ex-técnico da Seleção também chamava muito a atenção dos alvinegros da cidade.


– Não era só por ele, não. Quando o Tio Heleno vinha para cá, geralmente vinha também o João Saldanha, que era uma pessoa muito festejada e conhecida na cidade. A família era muito ligada a ele. Na verdade, todos na cidade eram. Quando ele chegava era uma festa. Chegava com aqueles carros grandes, bonitos e todo mundo sabia que era ele que estava chegando. Tem muita história – concluiu.

Embora fosse gaúcho, João Saldanha costumava ir a São João Nepomuceno com frequência (Foto: agência Gazeta Press)

Por Bruno Ribeiro Juiz de Fora, MG/GE