sexta-feira, 10 de junho de 2016

Bota respira nas finanças, e novo vice vê um 10 no orçamento: "Há margem"


Luiz Felipe Novis elogia política que reduziu R$ 117 mi da dívida, não descarta nome de peso, mas cita aprendizado com Seedorf: "Foi legal e tudo, mas não fecha a conta"





Em campo, os resultados não têm aparecido. Mas fora das quatro linhas eles estão dando as caras. Se o Botafogo está na lanterna do Campeonato Brasileiro, no quesito redução de dívidas ele estaria no G-4. No fim do mês passado, o Conselho Deliberativo aprovou as contas do primeiro ano da gestão de Carlos Eduardo Pereira, em que o débito do clube caiu em R$ 117,3 milhões - de R$ 848,4 milhões para R$ 731,1 milhões. Após esse desempenho, o então vice-presidente de finanças, Bernardo Santoro, deixou General Severiano por causa de projetos pessoais. Em seu lugar, foi homologado há duas semanas Luiz Felipe Novis. Ex-secretário do Conselho, ele acompanhou de perto a crise financeira, elogiou a política de austeridade da diretoria e disse que vai continuar o trabalho do antecessor que fez o Alvinegro respirar.


- Apesar de eu só ter chegado ao Conselho Executivo agora, os primeiros meses da gestão do Carlos Eduardo Pereira foram muito difíceis. Contas totalmente bloqueadas, sem recursos em caixa... O grande trabalho foi exatamente desbloquear os poucos recursos que estavam presos. Foi um ano realmente muito difícil. Eu diria que nesse segundo ano de gestão não estamos em uma situação tranquila, todos sabem que temos seríssimas limitações, mas pelo menos vivemos melhor. Hoje temos uma perspectiva. Hoje sabemos o que vai acontecer até o final do mês. No início da gestão, não sabíamos o que aconteceria no dia seguinte. Hoje temos uma visão maior do que podemos ter, do que podemos gastar. A melhoria foi significativa. Deu para dar uma respirada - avaliou o dirigente, que prevê de três a quatro gestão para "normalizar a dívida".


Novis, novo vice de finanças do Botafogo, na sala de troféus do clube em General Severiano (Foto: Thiago Lima)

Apesar de respirar, o Botafogo ainda não pode competir de igual pata igual com outros grandes clubes do Brasil por contratações. Mas existe uma reserva separada por um nome de peso. E embora o técnico Ricardo Gomes já se dê por satisfeito com os nove reforços contratados para o Brasileiro, a diretoria ainda monitora o mercado por um camisa 10. O Alvinegro chegou a tentar seduzir Alex, do Internacional, com uma proposta na casa de R$ 300 mil mensais de salário, mas o meia preferiu seguir em Porto Alegre. O novo vice de finanças garante que há espaço no orçamento para trazer este tipo de jogador.

É possível que ainda surja um camisa 10. A qualquer momento pode aparecer. Não há nada fechado. Mas há uma margem ainda para investir"
Luiz Felipe Novis, vice de finanças do Bota


- O Botafogo realmente tinha o interesse no Alex, mas ele prefere continuar no Inter. Vida que segue. É possível que ainda surja um camisa 10. A qualquer momento pode aparecer. Não há nada fechado. Mas há uma margem ainda para investir - disse Novis, sem descartar um projeto para trazer um novo astro como fez com Seedorf, mas com ressalvas.


- Não está descartado. Mas se vier, vamos fazer um trabalho que não foi feita na época do Maurício Assumpção. Com uma garantia de que vamos usufruir mais das receitas que um jogador desse porte pode trazer. Se tivéssemos ganho uma Libertadores com ele (Seedorf), seria diferente. Mas não ganhamos. Ganhamos um Carioca. Foi legal e tudo, mas não fecha a conta.

Novis recebeu o GloboEsporte.com em General Severiano esta semana. Durante aproximadamente 40 minutos, falou sobre a dificuldade para se obter um patrocínio master - realidade que tende a permanecer até o fim do ano -; disse que o orçamento para 2016 não prevê venda de jogadores da base por enquanto; tratou os processos fora do Ato Trabalhista como a maior dificuldade do departamento atualmente - Renato Silva bloqueio de R$ 525 mil do clube nos últimos dias -; entre outros assuntos. Confira a entrevista completa abaixo:


GloboEsporte.com: o Botafogo reduziu sua dívida em R$ 117,3 milhões - de R$ 848,4 milhões para R$ 731,1 milhões. Como conseguiu um resultado tão expressivo?


Luiz Felipe Novis: Basicamente, foram duas coisas. Primeiro a política de austeridade, que foi colocada como meta da gestão. Gastamos estritamente dentro do orçamento aprovado pelo Conselho. Isso ajuda. Além disso, as vantagens do Profut. Com a adesão ao programa, automaticamente a dívida junto aos órgãos públicos, principalmente os federais, foi reduzida sensivelmente. Mas a política de pés no chão também foi fundamental. (...) Na última semana meu nome foi homologado, então agora, efetivamente, estou começando o trabalho. Na verdade, dando continuidade ao trabalho do Bernardo (Santoro), que foi muito bom. A ideia é seguir na mesma linha, se preocupando com o dia a dia e priorizando o pagamento de todos os impostos. Por conta do Profut, há consequências sérias se deixarmos de honrar esses compromissos.


Mas teve também uma redução de custos no futebol ano passado, não é?


Teve. Tivemos de nos adequar às receitas previstas. Ainda temos nesse ano uma deficiência muito grande, que é a ausência do patrocínio master. Isso aí é um peso considerável. Esse ano tem sido muito ruim para a economia brasileira de uma forma geral. Então as empresas não estão investindo e priorizando essa parte de marketing. Isso com certeza tem prejudicado o Botafogo. Conseguimos patrocínios pontuais que ajudam, mas é muito diferente de termos uma receita a longo prazo. Isso, obviamente, nos obrigou a fazer reduções na área do futebol. Tivemos de nos adequar a essa realidade. 


Botafogo vem pelo segundo ano seguido adotando
 patrocínios pontuais (Foto: Divulgação/Botafogo)
A ausência de patrocínio é a grande vilã nas finanças dessa gestão?


Sem dúvida essa questão atrapalha muito, apesar de todo o esforço da área comercial e do marketing. Algumas tratativas ainda estão em andamento. Pode ser que mais para o final do ano, com uma melhora no cenário, a gente consiga avançar e ter um contrato mais duradouro. Ficamos na expectativa do acerto com a "Caixa Econômica Federal" que, infelizmente, não se concretizou. Essa é uma dificuldade que provavelmente, até o final do ano, teremos que conviver com ela. Acompanhei de longe as negociações com a "Caixa". Como eu fazia parte da mesa do Conselho Deliberativo, eu tinha muito contato, mas de uma maneira mais informal. (...) Além da questão fiscal, há a trabalhista. Temos que equacionar as dívidas trabalhistas. As nossas dificuldades são esses casos que querem ultrapassar o Ato, após acordos. Estamos honrando o Ato todos os meses. Estamos em dia, não devemos nada. Surgem esses sustos. O departamento jurídico está tratando, mas são percalços.


O mais recente desses casos foi o Renato Silva (bloqueio de R$ 525 mil)...


Sim, teve esse caso do Renato Silva. Tem aquele do Túlio Guerreiro, além de outros. No caso do Donizete Pantera, por exemplo, chegamos a um acordo. Mas não dá para prever quando vai surgir um novo problema. É uma questão de responsabilidade. As gestões anteriores fizeram contratos com os jogadores e não acompanharam adequadamente. Se rescinde sem saber as multas e custos envolvidos. E, obviamente, que todo jogador bem assessorado juridicamente ganha na Justiça. E o clube, atolado em outros problemas, perdeu-se prazos. E a dívida aumenta. A questão de evitar que isso aconteça é simplesmente cumprir o que foi acordado. Não dá para acordar aquilo que não se pode fazer. Parece simples, mas não foi feito. Não dá para empurrar o problema para as próximas gestões. As declarações anteriores ao Ato Trabalhistas terão de ser pagas na Justiça, mediante uma fila determinada pelo juiz. O Botafogo se compromete e vem pagando mensalmente. Novas ações, que eu desconheço e acredito que não existam, são para ser pagas separadamente do Ato.


O Botafogo disse que pagou cerca de R$ 13 milhões ao Ato no ano passado. O clube gasta mensalmente cerca de R$ 1 milhão com essas dívidas?


Eu não tenho os números exatos, mas é por aí. Existe uma escala, mas a média é mais ou menos essa, um pouco mais de R$ 1 milhão por mês.


As receitas do Botafogo vinham crescendo desde 2011, mas caíram no ano passado. Qual foi o motivo? Série B? Patrocínio?


A Série B afetou. Mas a receita de renda de jogos é muito complicada. O Botafogo só conseguiu um resultado financeiramente positivo no Campeonato Carioca porque chegou à final. Se ficasse apenas na Taça Guanabara, os números seriam vermelhos. A grande parte dos jogos é deficitária. E temos a complicação de não termos o nosso estádio nesse ano. Isso traz um prejuízo técnico e financeiro. O Nilton Santos para nós é uma fonte de renda com propaganda, estacionamento... Uma série de receitas. Não sei dizer o tamanho do prejuízo, mas isso já era uma coisa sabida. Quando foi feito o acordo com a Prefeitura, já sabíamos que na época da Olimpíada teríamos de devolver o estádio. Por outro lado, não temos algumas despesas.


O dinheiro reservado para essas despesas de manutenção no Nilton Santos está sendo investido na Arena Botafogo?


Sim, estamos investindo esses recursos na Arena Botafogo. Foi a melhor solução para preencher essa lacuna. Diminuímos os riscos técnicos e demos um peso maior ao programa sócio-torcedor. 


Dinheiro da manutenção do Estádio Nilton Santos foi usado na reforma do Luso-Brasileiro (Foto: Divulgação / Botafogo)

Quando retomar o Nilton Santos, o Botafogo continuará usando a Arena?


Não sei dizer. O acordo é para esse ano. Mas tudo vai depender do sucesso da Arena. Acredito que tem tudo para dar certo. Mas vai depender se a nossa torcida vai aceitar o estádio. Acho que essa resposta só podemos dar mais para o final do ano. Mas a tendência é voltar a ter o Nilton Santos como nossa casa. Mas é claro que temos que analisar a possibilidade de mandar jogos na Arena. Mas é fato que nesse ano era a melhor opção. O Vasco nem sempre pode alugar São Januário. Não podemos depender dos outros. Tivemos que buscar uma solução nossa. Volta Redonda e Juiz de Fora têm suas complicações, com vantagens e desvantagens.


Mesmo com a Arena, o Botafogo pode voltar a vender jogos para fora?


Acredito que não. Só em casos excepcionais. Mas a princípio os jogos serão sempre na Arena. Não faria sentido. Apenas uma oportunidade muito boa. Talvez um clássico. Mas o estádio está preparado para receber esses jogos. Tem a área de visitantes, e não é um estádio de difícil acesso, no sentido de garantir a segurança dos torcedores.


Quando o Botafogo vai ao mercado, há uma consulta a vocês?


Existe um planejamento e um orçamento. É claro que nesse momento que estamos vivendo existe pressão para gastarmos mais. É um fato que temos que conviver. Mas posso garantir que isso é feito de comum acordo, e há uma preocupação grande de não cometer loucuras. Não podemos fugir daquilo que podemos gastar. Se gastar um pouco mais aqui, certamente haverá um corte de gasto em outro lugar para compensar. Esse equilíbrio é uma coisa a ser perseguida. Não tem como. Mas há o consenso de que precisamos investir e reforçar o time. Eventualmente poderemos dispensar outros jogadores para reduzir a folha. São manobras do dia a dia. É um trabalho conjunto entre o futebol e a parte financeira.


O contato é diário com o futebol?


Não, esse é trabalho do Antônio Lopes e do Cacá (Azeredo) com a comissão técnica. Obviamente, nessas reuniões do Conselho Diretor (todas as segundas à noite), todos dão palpites, afinal somos todos botafoguenses (risos). Mas nossa responsabilidade é saber o custo das contratações. Quanto vai ser, se cabe no orçamento... Aí somos envolvidos.


O Botafogo estava tentando contratar o Alex, com uma proposta na casa de R$ 300 mil mensais. Então ainda há um dinheiro reservado para trazer um camisa 10?


Orçamento 2016 não prevê vendas da base: Ribamar
 é alvo na França (Foto: Vítor Silva/SSPress/Botafogo)
O Botafogo realmente tinha o interesse no Alex, mas ele prefere continuar no Inter. Vida que segue. É possível que ainda surja um camisa 10. A qualquer momento pode aparecer. Não há nada fechado. Mas há uma margem ainda para investir.


Em muitos clubes brasileiros está previsto no orçamento a venda de jogadores? O Botafogo trabalha com essa meta de vender alguma promessa nesse ano?


Sem dúvida, um dos caminhos para o equilíbrio financeiro do Botafogo, a médio e longo prazo, é nas categorias de base. Se eu pudesse revelar um Neymar por ano, certamente estaríamos em uma situação tranquila. Aproveitamos os jogadores, mas chega uma hora que fica muito difícil rejeitar ofertas. Hoje é consenso que o trabalho nas categorias de base, coordenador pelo Manoel Renha, é muito bom. Acho que em um curto espaço de tempo começaremos a ter receitas mais significativas de venda de jogadores. Temos uma safra muito boa. Mas para esse ano não colocamos no orçamento a meta de vender algum jogador. Mas é claro que se surgir uma proposta... Isso acontece em qualquer grande clube brasileiro.


Voltando um pouco ao passado, Seedorf foi um luxo que o Botafogo não poderia bancar?


Eu, particularmente, concordo com a tese do nosso presidente. É óbvio que o Seedorf trouxe vantagens para o Botafogo e o colocou na mídia internacional. Mas o planejamento não foi até o final. Chegou a um ponto que ele se esgotou rapidamente. Aproveitamos muito pouco o que o Seedorf poderia ter trazido para o clube em termos de projeção e marca de receita. A ideia foi boa, mas a execução foi curta. Poderia ter sido muito melhor. Tivemos um gasto significativo, mas não houve uma contrapartida, com receitas. É uma ideia boa, arrojada, e acho que o Botafogo tem que pensar grande em outra oportunidade, se houver. Mas tem que ser um trabalho com um prazo maior para ter o retorno no investimento.


Então um novo investimento, do tamanha feito com o Seedorf, não está descartado?


Não está descartado. Mas se vier, vamos fazer um trabalho que não foi feita na época do Maurício Assumpção. Com uma garantia de que vamos usufruir mais das receitas que um jogador desse porte pode trazer. Se tivéssemos ganho uma Libertadores com ele, seria diferente. Mas não ganhamos. Ganhamos um Carioca. Foi legal e tudo, mas não fecha a conta.


A atual gestão sempre falou que encontrou o Botafogo em uma situação trágica financeiramente. Após um ano e meio, como você avalia o momento atual?


Apesar de eu só ter chegado ao Conselho Executivo agora, os primeiros meses da gestão do Carlos Eduardo Pereira foram muito difíceis. Contas totalmente bloqueadas, sem recursos em caixa... O grande trabalho foi exatamente desbloquear os poucos recursos que estavam presos. Foi um ano realmente muito difícil. Eu diria que nesse segundo ano de gestão não estamos em uma situação tranquila, todos sabem que temos seríssimas limitações, mas pelo menos vivemos melhor. Hoje temos uma perspectiva. Hoje sabemos o que vai acontecer até o final do mês. No início da gestão, não sabíamos o que aconteceria no dia seguinte. Hoje temos uma visão maior do que podemos ter, do que podemos gastar. A melhoria foi significativa. Deu para dar uma respirada.

Aproveitamos muito pouco o que o Seedorf poderia ter trazido para o clube em termos de projeção e marca de receita. A ideia foi boa, mas a execução foi curta. Poderia ter sido muito melhor. Tivemos um gasto significativo, mas não houve uma contrapartida, com receitas. É uma ideia boa, arrojada, e acho que o Botafogo tem que pensar grande em outra oportunidade, se houver. Mas tem que ser um trabalho com um prazo maior para ter o retorno no investimento"
Luiz Felipe Novis, vice de finanças do Bota


E nessa perspectiva, quando você acredita que o Botafogo voltará a ter condições de brigar por contratações no mercado com outros grandes clubes do Brasil?


Vai levar um tempo. Mas esse é o caminho. Teremos que manter essa atual política, independentemente da próxima gestão. Isso é algo a ser perseguido. Não podemos voltar a ser administrados sem responsabilidade. Isso eu falo do Botafogo, mas serve para todos os clubes. Hoje em dia não é mais possível administrar um clube de futebol como se administrava a maioria dos clubes. Tem que existir essa responsabilidade de seus atos. Não se pode deixar bombas armadas para a gestão seguinte. Trabalhamos em cima de um planejamento sério e de um orçamento realista e executável. O caminho é esse. Consequentemente, vamos recuperar a credibilidade no mercado. No caso do Botafogo, para se normalizar a dívida, acredito que serão necessárias três ou quatro gestões.


E conte um pouco sobre você, qual sua formação e desde quando está no Botafogo?


Sou engenheiro de sistemas, já tive empresa na área de informática. Atualmente trabalho na área de controle de espaço aéreo. Trabalho em uma fundação que tem projetos e presta serviços para o departamento de espaço aéreo da Aeronáutica. Minhas especialidades são gestão e orçamento, tenho essa visão organizacional de projetos. Isso realmente ajuda. Temos no clube o pessoal da parte financeira, os gerentes remunerados, que nos dão esse apoio do dia a dia. Fui pela primeira vez do Conselho Deliberativo na época do Montenegro (Carlos Augusto Montenegro, presidente do clube entre 1994 e 1996). Depois fui conselheiro na gestão do Bebeto (de Freitas, presidente alvinegro entre 2003 e 2008). Voltei na gestão passada no conselho como parte da oposição. E agora. Sou sócio desde 1989.

Fonte: GE/Por Marcelo Baltar e Thiago Lima/Rio de Janeiro