quinta-feira, 26 de março de 2015

Aprovado pelo Bota, Daniel Carvalho recomeça: "Agora tento ser um atleta"


Clube decide tentar contratação de jogador de 32 anos, que admite ter deixado a parte física de lado e busca reencontrar forma de título conquistado há 10 anos




René Simões e Daniel Carvalho conversam em treino
 do Botafogo na última terça-feira: preparação para
 vínculo definitivo (Foto: Gustavo Rotstein)
Em 18 de maio de 2005, Daniel Carvalhose consagrou no Estádio José Alvalade, em Lisboa, como o melhor jogador da final da Copa do Uefa. De seus pés saíram as jogadas de todos os gols do CSKA na vitória por 3 a 1 sobre o Sporting, fazendo seu clube ser o primeiro russo campeão europeu. Dez anos depois, aos 32, ele tenta recomeçar a carreira após um ano e meio sem atuar no campo. Depois de anunciar a aposentadoria e aventurar-se no futsal, o gaúcho de Pelotas agora faz uma nova tentativa, a pedido do filho João Paulo, de 7 anos. Depois de uma breve temporada no América-RJ, surgiu a oportunidade de treinar no Botafogo sem qualquer tipo de compromisso. E o período de preparação, iniciado em 19 de fevereiro, começa a dar seus primeiros resultados. Comissão técnica e diretoria aprovaram o meia e em breve farão uma proposta para assinatura de um contrato válido até dezembro. A expectativa, portanto, é que Daniel Carvalho seja o primeiro reforço alvinegro para a Série B do Campeonato Brasileiro.

O acordo vai depender de um acordo salarial, já que o Botafogo tem um teto determinado. Mas, no que depender da vontade de Daniel Carvalho, não haverá problema. Sua expectativa é retribuir a receptividade alvinegra e contribuir com o técnico René Simões, um de seus principais incentivadores, com quem tem conversas na busca por ser um profissional livre de fantasmas do passado – principalmente em relação à forma física.

Em entrevista ao GloboEsporte.com, Daniel Carvalho destacou a importância do Botafogo na tentativa de retomar sua carreira e admitiu que este recomeço é guiado por dois principais caminhos: a busca por atuações parecidas com a da final da Copa da Uefa de 2005 e a mudança da mentalidade de que somente a qualidade com a bolas nos pés era suficiente para ser bem sucedido no futebol.

GloboEsporte.com - Como recebeu as recentes declarações do técnico René Simões, que disse considerar sua contratação para o Brasileiro?

Daniel Carvalho - Vi como meus objetivos, minhas metas sendo alcançadas, como o reconhecimento do meu esforço. No momento, isso representa uma vitória pessoal. Estou tentando buscar meu melhor, e saber que estou evoluindo é gratificante. Sei que os elogios são importantes, mas também sei que ainda não estou preparado para jogar de igual para igual com todos aqui.

Mas o que o significa saber que existe a possibilidade de ficar em definitivo? Gostaria de integrar o elenco do Botafogo?

Daniel Carvalho na final da Copa da Uefa de 2005: melhor
 em campo e auge da carreira (Foto: Agência Reuters)
Sem dúvida que gostaria. Mesmo na Segunda Divisão, o Botafogo é um clube de tradição, que logo vai voltar à Primeira. O grupo vem sendo formado agora mas já apresenta bons resultados. Estou contente por estar aqui e feliz pela forma com que todos me receberam. Aqui é diferente de outros clubes em que já trabalhei, porque não existe vaidade. É bom trabalhar com pessoas do bem, e me sinto bem assim.

Caso a contratação seja concretizada, fica claro que não haveria problema de entrosamento, já que há mais de um mês você participa de treinamentos e jogos-treino...

Quanto a esquema tático e conhecer jogadores, não tem problema. No futebol é só ser um pouco inteligente e você consegue ler o jogo e entender a característica de cada atleta. Tirando a forma física, que foi o motivo pelo qual mais me criticaram, sempre fui elogiado pelo jeito que entendia o jogo. Com certeza quem tem esse dom não desaprende. Sempre fui inteligente para jogar.

Você treina no Botafogo desde 19 de fevereiro, e desde então é visível sua evolução no aspecto físico...

Mas isso vai depender. Se eu jogar bem, tudo mundo esquece. Se eu for mal, vão falar do peso. A diferença de agora para o passado é que antes eu era um jogador, agora tento ser um atleta. Sei que a cada ano perde espaço no futebol quem só é inteligente e tem técnica. Comecei a botar na cabeça que preciso dar algo mais fisicamente, correr mais. Hoje no futebol tem espaço para esse atleta. Antes de parar eu achava que qualidade técnica era suficiente. Demorei para perceber isso, mas fui inteligente o suficiente para perceber que não tem espaço só para a qualidade. Estou tentando juntar essa qualidade técnica do passado com a dedicação e a parte física do presente.

A final da Copa da Uefa de 2005 ficou marcada em sua carreira. Nesse momento em que busca retomá-la, aquela atuação serve como uma espécie de estímulo, embora tenha sido há 10 anos?

Individualmente aquele foi a principal atuação da minha carreira. Coletivamente também, porque o CSKA foi campeão. Aquele foi o meu auge como atleta e jogador. Tenho que me espelhar nas coisas boas do passado. Tento ser hoje aquele jogador participativo que fui naquela final, e isso vai me colocando em forma. Ainda hoje sou muito reconhecido pela torcida do CSKA por aquele título. Se hoje eu fizer 75% ou 80% do que fiz naquela final, posso contribuir com o Botafogo, se eu vier a ficar.

Você já consegue se imaginar atuando pelo Botafogo neste ano?

Nos tempos de Atlético-MG, Daniel Carvalho recebeu
críticas em relação à forma física (Foto: Agência estado)
Sim, penso em contribuir, em ajudar, mas não quero apressar as coisas, nem o René. Para o Carioca não dá e para a Copa do Brasil vai ficar muito em cima, então seria para o Brasileiro. Se eu sentir que durante o mês de abril o trabalho me ajudar e se nesse período existir interesse do Botafogo, fico com a maior satisfação. Se não quiserem contar comigo, serão claros em relação a isso, e vou procurar outro objetivo. Estou contente aqui e eles estão contentes comigo, então pode existir essa parceria. Se não existir, o carinho por todos aqui continua. Se no futuro eu conseguir alcançar minhas metas, uma grande parcela será do René e do Botafogo.

É comum ver longas conversas suas com René Simões no campo antes e depois dos treinos. Quais os assuntos predominantes?

O René pergunta se estou me sentindo bem, se acha que estou evoluindo, crescendo. Ele diz que me vê melhorando e afirma que estou no caminho certo. Além disso vai me acompanhando, me orientando com dicas do que posso melhorar e o que devo manter. Além de ser uma relação profissional existe amizade e carinho, porque ele quer me ver jogando, independentemente de ser no Botafogo ou não.

Por Gustavo Rotstein Rio de Janeiro/GE