quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Da angústia ao alívio: fatos marcantes da recondução do Botafogo à elite


Clube supera problemas financeiros, técnicos e administrativos e assegura volta à Série A 345 dias após a queda. Confira momentos-chave deste período





Passaram-se 345 dias desde que a derrota por 2 a 0 para o Santos, em 30 de novembro do ano passado, sacramentou a queda do Botafogo. Desde então, os alvinegros sentiram na pele a agonia de mais um rebaixamento. Aos poucos, porém, a dor transformou-se em esperança. E, nas últimas semanas, num mar de tranquilidade. Por mais que reconheça que o atual elenco está aquém de suas tradições, o Botafogo navegou praticamente sem sustos na Série B. Apesar da serenidade de quem esteve desde a segunda rodada no G-4 e liderou 27 das 35 rodadas, o sofrimento precisava de um ponto final. E acabou. O Botafogo está de volta à elite do futebol brasileiro. A comemoração, nesta terça, após a vitória sobre o Luverdense no Passo das Emas, não veio com gritos de alegria. Mas sim com um sonoro "ufa" de cada botafoguense.

No terreno devastado por problemas financeiros, administrativos e técnicos, a nova gestão, que assumiu o clube no fim de 2014, plantou credibilidade. Ciente de suas limitações, manteve apenas Jefferson como estrela, a promessa de manter os salários em dia e fez apostas. Foram quase duas dúzias de contratações ao longo da temporada. Muitas não vingaram. Outras deram certo. Casos de Willian Arão, Navarro, Renan Fonseca, Neilton, entre outros, hoje, valorizados no mercado.


O GloboEsporte.com acompanhou o dia a dia do Botafogo durante esse período e separou 16 fatos que marcaram a recondução do Botafogo à elite do futebol brasileiro.


RECOMEÇO

Lopes e Mantuano apresentam Willian Arão e Giaretta. Até então desconhecido, volante tornou-se um dos destaques do Botafogo na temporada (Foto: Vitor Silva / SSPress)

O primeiro passo visando à temporada foi o acerto com René Simões, em dezembro passado. Em seguida, o clube anunciou Antônio Lopes como gerente de futebol. A dupla foi a principal responsável pela formação do elenco alvinegro. Quando chegaram ao Botafogo, os dois encontraram apenas oito jogadores à disposição. Era hora de ir ao mercado.

Elvis, Tássio, Willian Arão, Luis Ricardo, Roger Carvalho, Renan Fonseca, Diego Giaretta, Alisson, Carleto, Rodrigo Pimpão, Diego Jardel, Tomas Bastos e Bill chegaram numa tacada só. Juntaram-se a eles nomes como Gilberto, Sassá e Henrique, que retornaram de empréstimos. Da base, subiram Fernandes, Jean, André Luís e Saulo. A principal conquista, porém, foi a manutenção de Jefferson. Após longa novela, o goleiro renovou até o fim de 2017.


LAR, DOCE LAR

Botafogo não abriu mão do Nilton Santos na Série B (Foto: Satiro Sodré / SSPress)

Após 22 meses perambulando por estádios de todo país, o Botafogo voltou para casa no início do ano. Fechado em 2013 por conta de problemas na cobertura, o time voltou a usar o Engenhão, agora com o nome de Nilton Santos.

E o estádio foi fundamental na ressurreição alvinegra. Apesar de ainda não poder contar com a capacidade total – apenas 25 mil lugares foram liberados -, o Botafogo fez valer sua força como mandante. O primeiro revés ocorreu somente em julho, para o Figueirense, na Copa do Brasil. Em toda a temporada, foram apenas três derrotas no local. Na Série B, o aproveitamento em casa é de 72%. A sintonia com o Engenhão foi tamanha que o elenco solicitou à diretoria que não levasse as partidas decisivas da Série B para o Maracanã, como chegou a ser cogitado.


GRATA SURPRESA




Rebaixado e com o elenco reformulado, o Botafogo entrou no Campeonato Carioca como a quarta força da competição. Na teoria. Porque, na prática, o Alvinegro foi protagonista durante toda a campanha.

Na fase de classificação, o Alvinegro nunca deixou o G-4 e ainda faturou a Taça Guanabara, após vencer o Macaé com gol de Elvis. O título só veio após a confirmação do empate do Flamengo com o Volta Redonda, cujo minutos finais o elenco acompanhou por um aparelho celular no gramado do Nilton Santos (veja no vídeo acima).


Nas semifinais, o Alvinegro deixou para trás o Fluminense após histórica disputa por pênaltis com 22 cobranças. Na decisão, a equipe perdeu os dois jogos para o Vasco. Sem crise. Foi consenso no clube que o time de René Simões chegou mais longe do que o esperado.


BAQUE

Suspensão afastou Jobson a poucos dias do primeiro jogo da decisão do Carioca (Foto: Vitor Silva / SSpress)

A calmaria do Botafogo no Campeonato Carioca só foi interrompida por um baque na reta final. Em abril, a três dias do primeiro jogo da decisão com o Vasco, a Fifa validou a suspensão imposta pela federação saudita a Jobson e afastou o atacante por quatro anos do futebol.

Suspenso por ter se recusado a realizar exame antidoping quando defendia o Al-Ittihad, em 2014, Jobson foi impedido inclusive de treinar no Botafogo. Os advogados do atacante tentaram efeito suspensivo, mas ainda não tiveram sucesso. Jobson será julgado em janeiro e acredita que poderá retornar ao futebol no início de 2016.


RESSURREIÇÃO

Após quase dois anos afastado do futebol, Daniel Carvalho reencontrou o prazer de jogar (Foto: Vitor Silva/SSPress)

Logo após o fim do Carioca, o Botafogo anunciou três reforços: Daniel Carvalho, Camacho e Lulinha. O primeiro vinha treinando no clube desde fevereiro, quase dois anos após se aposentar do futebol. Daniel Carvalho foi titular na maior parte da campanha da Série B, mas conviveu com problemas físicos, devido ao longo período de inatividade. O meia, no entanto, termina o ano em alta e consolidado como o camisa 10 e principal garçom do Botafogo: foram dez assistências na temporada.


AVASSALADOR

Talvez nem o torcedor alvinegro mais otimista imaginasse um início tão bom na Série B. Nas primeiras oito rodadas, o Botafogo venceu sete jogos e empatou um. A arrancada gerou gordura, e o time carioca se manteve na liderança da Série B durante quase todo o primeiro turno.


MAL-ESTAR E RESCISÃO

Marcelo Mattos deixou o Botafogo após acordo com a diretoria (Foto: Vitor Silva / SSPress)

A primeira baixa com a Série B em andamento foi por opção da diretoria. Com salário quase quatro vezes acima do teto estipulado, o Botafogo decidiu se desfazer de Marcelo Mattos. Em junho, o clube não depositou o salário integral do volante e gerou mal-estar no elenco. Na ocasião, o empresário de Mattos, Carlos Leite, se reuniu com o Botafogo, que ofereceu a rescisão contratual. Chateado, Mattos, que estava no Botafogo há cinco anos, acertou com o Vitória.


NASCE UM XODÓ




Foi uma semana agitada. Na segunda-feira, Bill pediu, a diretoria acatou, e o camisa 9 rescindiu contrato. O substituto estava definido. Até então artilheiro do Brasil em 2015 pelo Botafogo-PB, Rafael Oliveira desembarcou no Rio de Janeiro e treinou com o elenco no Nilton Santos. A negociação, no entanto, deu para trás, e a vaga no ataque ao lado de Pimpão caiu no colo de Luís Henrique, jovem de 17 anos integrado aos profissionais há apenas cinco dias.

Em 3 de julho, pela 10ª rodada, o Estádio Nilton Santos viu a promessa das categorias de base tornar-se realidade. Luís Henrique precisou de apenas cinco minutos como profissional para marcar seu primeiro gol. Na vitória por 5 a 0 sobre o Sampaio Corrêa, ele fez de tudo: marcou duas vezes, sofreu pênalti, fez jogadas de efeito e, acima de tudo, provou ter personalidade para assumir o desafio, apesar da pouca idade. Desde então, o jovem passou por altos e baixos, mas não perdeu o status de xodó junto aos alvinegros.


ECOS DE MACAÉ




O primeiro turno do Botafogo na Série B pode ser dividido em antes e depois da derrota por 4 a 2 para o Macaé, na 9ª rodada, no fim de junho. Foi um passeio. No Estádio Cláudio Moacyr, o Alvinegro conheceu seu primeiro revés na Série B. E ele veio com requintes de crueldade. A equipe de René Simões foi para o intervalo perdendo por 3 a 0.

A atuação gerou questionamentos internos, e o resultado foi o primeiro de vários tropeços que vieram a seguir, derrubaram René Simões e criaram o único período de instabilidade do Botafogo na competição.


SOB NOVA DIREÇÃO

Ricardo Gomes assumiu com o Botafogo na liderança (Foto: Vitor Silva/SSPress)

René Simões não resistiu à sequência ruim e foi demitido após a eliminação na Copa do Brasil, para o Figueirense. Afastado do futebol por quatro anos por conta de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) em 2011, Ricardo Gomes aceitou o desafio e assumiu o Botafogo.

O início não foi fácil. Apesar de o Botafogo ainda estar na liderança, o momento dentro de campo era ruim. Os tropeços nas primeiras partidas com Ricardo derrubaram o Alvinegro para a quarta colocação. Aos poucos, no entanto, o treinador arrumou a equipe com a chegada de reforços, o time reencontrou o bom futebol e voltou a navegar em mares calmos na Série B.


DEBANDADA

Destaques do primeiro semestre, Rodrigo Pimpão e Gilberto deixaram o Botafogo (Foto: Vitor Silva / SSPress)

A janela de transferências passou como um trator no Botafogo. O primeiro a sair foi Bill, rumo ao futebol sul-coreano. Gilberto foi para a disputa do Pan-Americano e sequer voltou, negociado com a Fiorentina. Destaque do time na Série B, Pimpão partiu para o mundo árabe. Henrique foi emprestado ao Coritiba, enquanto Airton saiu após o término do contrato.

As cinco baixas aliadas à suspensão de Jobson e à saída de Marcelo Mattos foram sentidas. Com tantas perdas, o Botafogo se viu obrigado a apostar nos jovens. A garotada não foi mal, mas o clube passou por seu momento de maior instabilidade na Série B.


NEGÓCIO DA CHINA

Chang Bao treinou três meses com o elenco do Botafogo (Foto: Vitor Silva/SSPress)

Não foi só dentro de campo e no comando técnico que o Botafogo passou por mudanças ao longo da Série B. No meio da competição, o vice de futebol, Antônio Carlos Mantuano, renunciou após desavenças com a diretoria.

A gota d'água foi o embate a respeito de uma eventual comissão ao jogador chinês Chang Bao. Integrado ao time para atrair investimentos, o meia nunca assinou contrato, mas treinou com o elenco alvinegro durante três meses. Mantuano gostaria que o atleta fosse recompensado pelo interesse da delegação chinesa em aproveitar as instalações do clube durante as Olimpíadas-2016. A diretoria foi contra. O dirigente deixou o clube após acalorada discussão e foi substituído pelo vice de remo, Antonio Carlos Azeredo de Azevedo, conhecido como Cacá.


NOVA LEVA

Deu certo: juntos, Neilton e Navarro já marcaram 15 gols pelo Botafogo (Foto: Sátiro Sodré/SS Press)

Com a saída de peças importantes, o Botafogo foi ao mercado. Neilton, Navarro, Ronaldo, Serginho, Bazallo, Rodrigo Lindoso e Aírton foram contratados. Os dois primeiros resolveram os problemas ofensivos de Ricardo Gomes, tornaram-se protagonistas na campanha e, juntos, já marcaram 15 gols na Série B. Lindoso também virou titular. Por outro lado, Bazallo e Aírton sequer entraram em campo.

DNA OFENSIVO

Peça ao ex-técnico alvinegro René Simões para apontar a característica mais marcante do elenco do Botafogo, e ele dirá sem pestanejar: “o DNA ofensivo”. Ao longo da temporada, o time mostrou vários defeitos, mas provou saber fazer gols. Contra o Bragantino, a equipe atingiu a marca de 100. Hoje, já são 105 em 2015.


SUPREMACIA EM NÚMEROS

Números comprovam superioridade do Botafogo na Série B (Foto: Aldo Carneiro / Pernambuco Press)

Pelo menos no que diz respeito a estatísticas, a campanha do Botafogo na Série B é irretocável. O time nunca saiu do G-4, liderou 27 das 35 rodadas até o momento, e nada leva a crer que deixará o topo até o fim da competição.


O Botafogo também é o time que mais venceu (20 vitórias), menos perdeu (sete derrotas), tem o melhor ataque (58 gols) e a defesa menos vazada (26 gols).


ÚLTIMO ATO




Com quatro rodadas de antecedência, o Botafogo garantiu o acesso à Série A na distante Lucas do Rio Verde (MT), a 2.556 quilômetros do Rio de Janeiro. Em um gramado ruim e um campo cheio de mosquitos, o Alvinegro derrotou o Luverdense por 1 a 0 e assegurou o retorno à elite.


O herói do acesso foi inesperado. Em seu quarto jogo com a camisa do Botafogo, Ronaldo marcou seu primeiro gol com a camisa alvinegra e entrou para a história do clube. Hora de festejar, mas com moderação. Afinal, o Botafogo ainda busca o título. E ele pode vir já no próximo sábado, diante do Santa Cruz.


Por Marcelo Baltar Rio de Janeiro/GE