segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

De protestos ao pênalti de Jobson: a queda do Botafogo em 15 capítulos


Campanha do rebaixamento é marcada por estreia desastrosa, crise financeira, abalo emocional, troca de farpas na imprensa, demissão em massa e conflito com a torcida


O anunciado rebaixamento do Botafogo à Série B do Campeonato Brasileiro foi decretado neste domingo, com uma rodada de antecedência. Com a derrota para o Santos - 2 a 0 na Vila Belmiro - o Alvinegro não tem mais chances de deixar o Z-4, zona que ocupou em 19 das 37 rodadas, ou seja, durante mais da metade da competição até aqui. Ao todo, o time de Vagner Mancini acumulou 22 derrotas, seis empates e apenas nove vitórias.

Em penúltimo lugar com 33 pontos, o Botafogo só pode chegar a 36 na última rodada. A queda foi o capítulo final de uma campanha marcada por diversos problemas dentro e fora de campo. Da desastrosa estreia à discussão pelo pênalti perdido por Jobson na 35ª rodada, em mais uma derrota em casa, o GloboEsporte.com separou os 15 principais episódios que culminaram na irreversível degola.

01 ESTREIA DESASTROSA

A estreia do Botafogo no Campeonato Brasileiro também foi o primeiro jogo de Vagner Mancini à frente do Alvinegro, depois do fracasso sob o comando de Eduardo Hungaro na Taça Libertadores. E a primeira impressão foi a que ficou: a derrota para o São Paulo no Morumbi foi por 3 a 0, fora o baile. Após o jogo, o treinador chegou a dizer que viu um time "sem alma" em campo.



02 AS FAIXAS: PROTESTO E APOIO

A crise financeira no clube piorou devido ao bloqueio de todas as receitas, o que fez com que o presidente Maurício Assumpção chegasse a cogitar abandonar o Brasileirão em conversa com a presidente Dilma Roussef. Após a Copa do Mundo, a situação começou a ficar insustentável, a ponto de os jogadores entrarem em campo no clássico diante do Flamengocarregando uma faixa de protesto contra a diretoria. Eles reclamaram dos salários em atraso e, inclusive, especificaram o débito: três meses na carteira de trabalho, cinco de direito de imagem, além do FGTS. A mensagem dizia: "Estamos aqui porque somos profissionais e por vocês, torcedores".

A resposta da torcida foi rápida, logo no jogo seguinte. Alvinegros levaram outra faixa ao Maracanã, em claro recado de insatisfação com a administração de Assumpção: "Estamos aqui por amor ao Botafogo e para apoiar vocês, jogadores. Jamais por essa diretoria amadora. Joguem por nós".



03 BAIXA NA JUSTIÇA

No início de agosto, o clube conseguiu por meio de uma ação do Sindeclubes R$ 2,5 milhões para quitar um mês de salários atrasados. Porém, seis jogadores do elenco foram informados de que não receberiam sob a alegação de terem os valores mais altos na carteira. Fato que piorou o clima no grupo. O lateral-direito Lucas, um dos seis atletas em questão, entrou na Justiça e conseguiu a rescisão de seu contrato por estar há três meses sem remuneração, além de falta de depósito do FGTS.



04 DESFALQUE TÉCNICO E FINANCEIRO

A árdua situação financeira praticamente obrigou o clube a vender um de seus principais jogadores e revelação: o zagueiro Dória, contratado pelo Olympique de Marselha, da França. Além de perder o titular da posição, a diretoria não viu a cor do dinheiro. Só que para fugir de penhoras, o combinado foi receber os cerca de R$ 9 milhões só em 2015, quando tiver suas receitas desbloqueadas. Ou seja, a perda considerável em termos técnicos não teve um ganho de igual proporção em termos financeiros durante o Brasileirão.



05 LESÃO DE DANIEL

Justamente quando o Botafogo vivia seu melhor momento no semestre, em 13º lugar no Brasileiro e uma classificação heroica para as quartas de final da Copa do Brasil, com um gol no último minuto sobre o Ceará no Castelão, uma lesão tirou do Alvinegro um jovem jogador que vivia boa fase: Daniel sofreu um rompimento no ligamento cruzado do joelho direito, forçando-o a ficar afastado dos gramados por seis meses para recuperação.



06 DESCONTROLE EMOCIONAL

No início do returno, em setembro, o Botafogo estava fora do Z-4. Mas o emocional de alguns jogadores já estava fragilizado, como o de Airton. Ao reencontrar o São Paulo no Mané Garrincha, em Brasília, derrota por 4 a 2 e expulsão infantil do volante, que deu um pisão na cabeça de Alexandre Pato após se desentender com o adversário em outros momentos da partida. O alvinegro ainda pegou dois jogos de suspensão em julgamento no Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD).



07 APOSTA DE RISCO

A fase ruim da equipe, somada aos muitos desfalques e à falta de recursos para contratações fizeram o clube repensar e dar uma nova oportunidade a Jobson. Com contrato até dezembro de 2015, o atacante retornou ao Botafogo depois de deixar o Al Ittihad, da Arábia Saudita, e ficar quatro meses sem jogar. A princípio, o herói da fuga do rebaixamento em 2009 ficaria só trabalhando à parte, mas a necessidade do time falou mais alto.



08 SHEIK X CBF

Emerson Sheik comprou uma briga com a Confederação Brasileira de Futebol após ser expulso diante do Bahia no Maracanã. O atacante, que vinha sendo o destaque do jogo com dois gols, recebeu o cartão vermelho, deixando com um a menos a equipe, que acabou sofrendo a virada para 3 a 2 – derrota que fez o Alvinegro voltar para a zona de rebaixamento. Ao deixar o campo, o jogador declarou em frente às câmeras: "CBF, você é uma vergonha!". Posteriormente, em julgamento no STJD, ele pegou quatro jogos de gancho por ofensas ao árbitro e um por jogada desleal. E Sheik reclamou: "Não posso desabafar?".



09 DEMISSÃO EM MASSA

A crise estourou de vez no início de outubro, quando Maurício Assumpção decidiu rescindir o contrato de quatro dos principais jogadores e líderes do elenco: Emerson Sheik (que reclamava abertamente da diretoria e chegou a chamá-la de incompetente na imprensa), Bolívar, Edilson e Julio Cesar. Eles foram afastados por causa de divergências com a direção. Além disso, o técnico Vagner Mancini chegou a colocar seu cargo à disposição, mas o presidente não aceitou.



10 RESPOSTA DOS AFASTADOS

Após a dispensa, o Botafogo perdeu para o Vitória, no Barradão, e para o Palmeiras, no Maracanã, indo parar na lanterna do Brasileirão. No dia seguinte, Sheik divulgou um vídeo em uma rede social na qual aparece dançando ao som de um funk de Stevie B, de sunga, em sua cobertura de frente para a praia da Barra da Tijuca. No início do vídeo, é possível ouvir alguém falando: "Não faz isso, não."



Em entrevista coletiva dias depois, o quarteto dispensado concedeu uma entrevista coletiva para dar a sua versão das demissões e reclamar da postura de Assumpção. Os jogadores afirmaram que aceitariam voltar ao clube caso mudasse a diretoria.



11 CONFLITO INTERNO: JEFFERSON X GOTTARDO

Jefferson voltava da seleção brasileira após disputar os amistosos contra Argentina e Japão, na Ásia. Fez escala em São Paulo, onde o Botafogo enfrentou o Santos e foi eliminado nas quartas de final da Copa do Brasil. Porém, o goleiro não se juntou ao grupo, e a ausência irritou o técnico Vagner Mancini e o gerente de futebol Wilson Gottardo. O camisa 1 alegou que não havia programação para se apresentar na concentração e reclamou publicamente: "Foi uma grande covardia do Gottardo." Mas o gerente garantiu que pediu com antecedência a participação dele na partida e respondeu: "Não jogar talvez tenha sido um ato de covardia."Maurício Assumpção precisou intervir para acabar com a troca de farpas via imprensa.



12 PERDA DO MARACANÃ

Para piorar o lado técnico, o Botafogo perdeu o Maracanã na reta final do Brasileirão. Tudo por conta de uma ação judicial, movida por Joel Santana em 2003 (quando era técnico do clube), que já penhorou R$ 1,5 milhão. E o caso teve um complicador: a Justiça determinou que o valor fosse retirado das contas da concessionária que administra o estádio, que não é ré na ação, por conta de uma suposta recusa em penhorar as rendas alvinegras. Para escapar da mordida financeira, passou a ter que escolher outros palcos e optou por Raulino de Oliveira, em Volta Redonda, e São Januário, mas não teve bom desempenho – no primeiro, empate com Sport (1 a 1) e derrota para o Atlético-PR (2 a 0); no segundo, revés diante do Figueirense (1 a 0).



13 INVASÃO DA TORCIDA

Após a sequência de resultados negativos, cerca de 20 torcedores do Botafogo invadiram o Engenhão durante um treino do time para protestar contra o presidente Maurício Assumpção. No estádio, tiveram contato com jogadores e comissão técnica na sala onde acontecem as entrevistas coletivas.



Mas o papo não foi nada pacífico. Um vídeo, feito por um dos presentes e que circulou na internet no mesmo dia, mostrou que por pouco o encontro não terminou em pancadaria. Houve muita discussão e xingamentos, e o clima esquentou principalmente com o meia Carlos Alberto. E a cena não foi inédita: em julho, alvinegros também chegaram a invadir a sede em General Severiano.



14 O PÊNALTI DA DISCÓRDIA

Longe de repetir o brilho de 2009, Jobson ainda virou vilão da derrota para o Figueirense em São Januário – partida considerada de suma importância na luta contra o rebaixamento – ao perder um pênalti quando o placar ainda estava em branco. O fato irritou bastante o técnico Vagner Mancini, que queria Murilo na cobrança e classificou a atitude do atacante em pegar a bola como "irresponsável".



Houve discussão no vestiário entre comandante e jogador, que não ficou quieto. No dia seguinte, concedeu entrevista coletiva e deu sua versão para o episódio, dizendo que ninguém teve coragem de assumir a responsabilidade e que não se arrependia.



15 O REBAIXAMENTO

O Botafogo resistiu à degola enquanto pôde. Manteve-se vivo na antepenúltima rodada mesmo perdendo para a Chapecoense. A queda poderia ter acontecido também no último sábado, mas as derrotas do Vitória para o Flamengo e do Palmeiras para o Internacional deram ao Alvinegro uma sobrevida e a chance de jogar mais uma vez por sua sobrevivência no domingo. Só que o problema era esse, depender de si. Enquanto os outros resultados ajudaram, o revés por 2 a 0 para o Santos na Vila Belmiro sacramentou o que já estava encaminhado.



E a partida simbolizou o que foi a campanha do time de Vagner Mancini no Brasileiro: fragilidade defensiva, pouco poder de reação e descontrole emocional representado pela discussão entre Andreazzi e Dankler em campo, quando o placar ainda estava em branco.



Ao término da partida, os jogadores lamentaram o desfecho negativo da temporada e pediram desculpas aos torcedores. Um deles, na arquibancada da Vila Belmiro, trocou os protestos que surgiram durante o ano para demonstrar seu amor pelo clube em meio ao segundo rebaixamento. No cartaz, a mensagem: "Eu não amo a Série A, eu amo o Botafogo".



Por GloboEsporte.com Rio de Janeiro