quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Por que caiu? Caiu por quê? Dossiê Botafogo III: surrealismo e descontrole


Orçamento que contava com premiação de todos os torneios do ano, aumentos para a "turma da praia", adeus de Seedorf e fiasco na Libertadores: a queda se desenha





A terceira reportagem da série começa no fim de 2013, quando a falta de planejamento do Botafogo transbordou. O Departamento de Futebol resolveu ignorar solenemente os pedidos de contenção de despesas do financeiro. Em vez de cortar custos, o futebol resolveu aumentá-las e produziu um orçamento surrealista. Em janeiro, os salários já estavam em atraso e a volta do clube à Libertadores virou um pesadelo.


1 - O orçamento surreal

Apesar do caos financeiro, a vitória no estadual e a vaga na Libertadores deram argumentos para que o departamento de futebol vendesse sucesso. O Botafogo, afinal, tinha voltado à Libertadores depois de 18 anos. Em vez de assumir os erros, Sidnei e Chico resolveram dobrar a aposta e produziram um orçamento que beirava o inacreditável. Previram premiações para todos os títulos do ano: estadual, Copa do Brasil, Brasileiro, Libertadores e Mundial.

– Fui no Corinthians pegar o orçamento deles do time campeão do mundo. Os caras conseguiram fazer um orçamento maior que aquele – comentou um dirigente.

Em e-mail enviado a vários diretores, o diretor executivo Sérgio Landau reclamou que o orçamento enviado pelo futebol previa gastos mensais de R$ 11,7 milhões. Só em salários e direitos de imagem, a previsão mensal era de R$ 7 milhões. O departamento financeiro tinha informado ao departamento de futebol e ao presidente, em outubro, que o clube estava quebrado e com aquele orçamento seria bem pior. As despesas do futebol precisariam ser reduzidas para R$ 3,7 milhões. Foi ignorado.

– O presidente de fato do primeiro mandato foi o Landau. No segundo, Sidnei fez a cabeça do Maurício para assumir de fato e esvaziar o Landau. O futebol não respondia a mais ninguém.

O Conselho Fiscal rejeitou o orçamento surrealista e exigiu um novo. Landau avisou que, mesmo se os gastos ficassem em R$ 3,7 milhões, o clube precisaria captar R$ 40 milhões no mercado. Anotou ainda que as despesas do futebol no último trimestre de 2013 tinham ficado numa média de R$ 5 milhões.

Orçamento do Botafogo previa premiação para todos os campeonatos da temporada (Foto: Vicente Seda)

2 - Reajustes

O Departamento de Futebol não apenas ignorou a recomendação de corte de custos, como resolveu aumentá-los. Entre dezembro e janeiro, um festival de aumentos trouxe alegria para antigos e novos membros da comissão técnica. Em dois casos, funcionários criaram empresas e passaram a ganhar via CLT e como prestadores de serviço, situação que o departamento jurídico alertou que era ilegal.

Isso gerou um desconforto em Landau, que havia criado um comitê de gestão responsável por normatizar as alterações salariais. Como o presidente autorizava tudo o que o futebol fazia, Landau acabou com todos os comitês. Irritado com o Futebol e adoentado, o vice financeiro, Carlos Alberto Calumby, também pediu exoneração. Chico Fonseca assumiu também a vice-presidência financeira.

Sérgio Landau em coletiva: fim dos três comitês após reajustes (Foto: Satiro Sodré / AGIF)
3 – "Gente de azul"

Nada menos que 18 profissionais foram demitidos entre 2013 e 2014. Em janeiro, o departamento médico foi demitido, junto com o fisioterapeuta Altamiro Bottino, o fisioterapeuta Alex Evangelista e o analista de desempenho Marcelo Xavier. Os ex-técnicos dos juniores Anthoni Santoro e Jair Ventura também entraram na barca. Criou-se uma flagrante divisão entre os “o pessoal da base” e os profissionais restantes na comissão técnica – como o preparador de goleiros Flavio Tenius, que havia resistido por conta de sua ligação com Jefferson.

– Eles chegaram da base com marra achando que sabiam tudo porque ganharam um campeonato de juniores. E não sabiam nada. Não sabiam que profissional é diferente – disse um membro da comissão técnica.

Ainda em janeiro, Loureiro promoveu uma série de contratações. A comissão passou a ter três auxiliares-técnicos: Eduardo Barroca e Flávio Oliveira e um dos fiéis escudeiros de Loureiro, o preparador de goleiros Christiano Fonseca. Outros homens de confiança de Loureiro, Marcos Pinheiro (o Mineiro) e Cláuber Antunes, também foram promovidos para o profissional. Apesar das demissões, a comissão técnica continuava inchada.

– Tinha mais gente de azul (comissão) do que de cinza (jogador) no campo – comentou um dirigente.

Flavio Tenius treina Jefferson: preparador resistiu por ligação com o goleiro (Foto: Thales Soares / Globoesporte.com)

4 – Praia rica


A rubrica "Pessoas Jurídicas" do orçamento de futebol traz uma noção da quantidade de aumentos ocorridos entre dezembro de 2013 e janeiro de 2014.O clube gastou R$ 291.050 em dezembro com PJs do futebol. Apesar da recomendação de corte de custos, em janeiro esse número pulou para R$ 481.474 em janeiro. Em abril chegou a R$ 595.288.

Os aumentos da chamada "turma da praia" entre 2009 e 2014 chamaram atenção. Eduardo Hungaro, que chegara ao clube em 2009 ganhando R$ 2 mil, saltara para R$ 27 mil e em janeiro de 2014 passou a R$ 65 mil já como PJ (porque virou treinador - em sua defesa, diga-se que certamente era um dos salários mais baixos da série A). Christiano Fonseca pulara de R$ 2 mil para R$ 18 mil. Ele e Ney Souto passaram a ganhar via CLT e também via PJ. Mineiro pulou de R$ 1,5 mil e passou a ganhar R$ 6 mil como auxiliar de coordenação administrativa. Felipe Arantes começara com R$ 2 mil e em 2014 já ganhava R$ 9,5 mil no cargo de auxiliar-técnico. Seu irmão, Bernardo, tinha pulado de R$ 5 mil para R$ 21 mil.

Mas os aumentos não ficaram apenas para os praianos. O analista de desempenho Alfie Assis, que era responsável pelas apresentações em Power Point da base, entrou no clube em 2009, como estagiário, ganhando R$ 150. Em 2014, já como profissional, tinha vencimentos de R$ 5.914. Um aumento de mais de 3.000% em cinco anos num clube sem recursos.

Eduardo Hungaro comanda treino: do salário inicial de R$ 2 mil a R$ 65 mil em janeiro de 2014 (Foto: Vitor Silva/SSPress)

5 - Ilha da fantasia

A situação financeira do clube só piorava. O clube tinha dívidas imensas com os empresários Eduardo Uram e Carlos Leite. Devia também ao fundo do banco BMG e buscava empréstimos de toda sorte. O fluxo de caixa já era negativo e as penhoras tornavam a gestão praticamente impossível. O departamento financeiro fazia malabarismo para conseguir recursos e antecipações. Enquanto isso, o Futebol aumentava seus gastos. Em dezembro de 2013, a vice-presidência de futebol gastou R$ 4,9 milhões. Em janeiro, os gastos pularam para R$ 5,6 milhões. Em fevereiro chegaram a R$ 5,8 milhões.

Carlos Leite em sua empresa: Botafogo acumula dívidas imensas com o empresário (Foto: Janir Júnior)
6 – Adeus de Rafael Marques e Seedorf

Se o time já se enfraquecera em 2013, o início de 2014 foi ainda pior. Seedorf parou de jogar e foi ser técnico do Milan. Sidnei Loureiro confidenciou ao repórter Thales Soares.

– Já sabíamos que o Seedorf ia parar. Por isso nos planejamos antes e trouxemos o Jorge Wagner.

Outro que saiu foi Rafael Marques. Antes criticado por Montenegro e Loureiro, ele tinha se tornado um dos principais jogadores do time em 2013. Foi autor do gol do título estadual. Acabou indo para a China.

– Eu não queria sair, mas todo mundo está saindo e eles não vão pagar ninguém – confidenciou Rafael a um amigo.

Além de Jorge Wagner, o clube foi atrás de reforços. Sem caixa e devendo a empresários, o clube aceitou ofertas como os gêmeos Alex e Anderson, encaixados por Eduardo Uram. E uma série de jogadores em baixa foram contratados. Chegaram os argentinos Ferreyra e Bolatti, Wallyson, Junior Cesar, Airton e Rodrigo Souto. Todos, sem exceção, estavam na reserva de seus times.

Seedorf se emociona na despedida do Botafogo: meia optou por virar técnico no Milan (Foto: Satiro Sodré / SSPress)

7 – O gigante voltou

A temporada começou com uma derrota. Com Rodrigo Souto como titular e Ferreyra no ataque, o time perdeu para o Deportivo Quito na altitude por 1 a 0. No jogo de volta, mais de 50 mil alvinegros encheram o Maracanã, fizeram um belíssimo mosaico e o time derrotou os fraquíssimos equatorianos por 4 a 0 – com dois gols de Wallyson.

O time se classificou para a fase de grupos – o que valeria a premiação de R$ 200 mil para o treinador Eduardo Hungaro. E estreou bem contra o San Lorenzo, vencendo o time argentino por 2 a 0 também no Maracanã. Mas a partir daí o time fraquejou. Fora de casa empatou com os chilenos do Unión Española e perdeu no fim para o Independiente del Valle.

Depois de vitória suadíssima contra os equatorianos em casa, o time precisava apenas da vitória contra o Unión para garantir a vaga nas oitavas de final. Irritados com o atraso de salários e promessas não cumpridas, os jogadores ameaçaram entrar em greve antes da partida contra o Union Española, no Maracanã. O clube dominou mas acabou perdendo num pênalti mal assinalado. A classificação passou a depender de um empate contra o San Lorenzo na Argentina. Em Buenos Aires, o time foi atropelado por 3 a 0.

Os dirigentes culparam a “postura dos atletas” pelas derrotas – mas sem recursos e com 100% das receitas penhoradas, que punições seriam possíveis?

Torcida do Botafogo faz mosaico gigante: alegria pela volta à Libertadores (Foto: Alexandre Cassiano / Agência O Globo)
8 - O pior estadual da história

A “turma da base” convenceu Hungaro a escalar o time reserva no estadual e priorizar a Libertadores – contra o conselho dos outros membros, como Barroca. Se time titular já era fraco, o reserva era péssimo. Sem talento nem organização, o Bota fez a pior campanha de sua história. Ficou em nono lugar com 17 pontos – atrás de Cabofriense, Boavista, Macaé, Friburguense e Nova Iguaçu. Em 15 jogos teve quatro vitórias, cinco empates e seis derrotas. Fez meros 16 gols e tomou 17 – saindo do Estadual com saldo negativo. Com o duplo fracasso, a pressão sobre Eduardo Húngaro se tornou insuportável.

Botafogo perde para o Macaé no Carioca 2014: pior campanha da história (Foto: Carlos Moraes/Agência Estado)

9 – Corte seletivo

Em abril, a tensão no futebol era imensa. Os salários seguiam em atraso e os jogadores começavam a se desesperar. Pressionado por Landau e pelo financeiro, o departamento teve que cortar custos. Loureiro demitiu vários auxiliares que tinha contratado em janeiro, como Barroca e Flavio Oliveira. Para atingir Jefferson, dispensou Flavio Tenius, trazendo para seu lugar o ex-treinador do Fluminense e do Grêmio Victor Hugo, ligado a Christiano Fonseca.

Esses cortes, porém, não atingiram os homens próximos de Loureiro: o próprio Fonseca, Cláuber e Mineiro. Todos continuaram empregados. E Duda Hungaro, mesmo rebaixado, continuou ganhando o mesmo salário.

– Ele ganha R$ 65 mil pra carregar prancheta – dizia um membro da diretoria.

Eliminado do estadual e da Libertadores, o clube contratou Vagner Mancini para o Brasileiro. E trouxe dois auxiliares: Mauricinho e Régis. Com isso, Christiano Fonseca também foi rebaixado. Deixou de ser auxiliar técnico e virou novamente preparador de goleiros. Ou auxiliar de prepardor de goleiros, já que Victor Hugo tinha sido contratado para o cargo. Mas seu salário foi preservado.

Botafogo perde o San Lorenzo na Argentina e é eliminado da Libertadores (Foto: Juani Roncoroni/Agência Estado)

9 – O amistoso que não foi

Sem resultados no campo, Loureiro voltou suas baterias para os executivos do clube. Internamente, dizia aos jogadores que o financeiro prometia recursos que nunca chegavam. O diretor Marcelo Murad viajou para a Argentina para ver o time ser eliminado da Libertadores contra o San Lorenzo, e o clima ficou tenso, porque jogadores reclamaram de sua presença.

O clube acertou um amistoso por R$ 150 mil contra o Botafogo-PB. O dinheiro seria usado para pagar uma intertemporada em Saquarema, no CT da seleção de vôlei. Os jogadores informaram que não iriam jogar na Paraíba. Loureiro e Assumpção resolveram demitir Bolívar, considerado o líder da insurreição. Informaram ao empresário do atleta.

Bolívar, que ganhava R$ 100 mil mensais, tinha renovado por R$ 360 mil em dezembro de 2013, algo que havia assustado o departamento financeiro. Quatro meses depois seria demitido?

– Eles disseram que querem me mandar embora. Vamos ver se é isso mesmo – disse Bolívar.

Os jogadores se reuniram e convocaram uma reunião com o presidente e a diretoria no Engenhão.

– Se ele sair, sai todo mundo – disse um dos líderes do elenco.

Desmoralizados, os dirigentes engoliram em seco e tiveram que chamar o jogador de volta. Não havia dúvidas sobre quem mandava no vestiário.

Bolívar se refresca: demitido e chamado de volta após cancelamento de amistoso (Foto: Satiro Sodré / Botafogo)

10 – Landau x Loureiro

O clima entre Sidnei Loureiro e Sérgio Landau ficou insustentável. Nos bastidores, os dois se metralhavam mutuamente. Loureiro tinha escolhido a única briga que não podia ganhar. Landau era o executivo de confiança de Assumpção, com uma teia de relações que ia da CSM (ex-Golden Goal), operadora do sócio-torcedor do clube, até os donos das novas arenas do futebol brasileiro – em especial a Odebrecht, principal empresa do Consórcio Maracanã.

Sem moral com os jogadores e com o time em frangalhos, Loureiro percebeu que ficaria com a conta do fracasso. No meio de julho deixou o clube. E saiu atirando. Em entrevista gravada ao GloboEsporte.com, Loureiro disse que o Futebol tinha cumprido as metas pedidas pelo financeiro, tendo cortado 30% das folhas dos jogadores e da comissão técnica. E bateu firme no diretor executivo Sérgio Landau e no diretor financeiro Marcelo Murad.

– Eles prometiam, mas o dinheiro nunca chegava.

Landau ficou enlouquecido. No dia 25 de julho, mandou um e-mail desabonador para Assumpção cobrando providências e disse que iria processar Loureiro. Na mensagem, ele rebateu ponto a ponto as declarações do ex-gerente. Disse que, ao contrário de cortar, os gastos do futebol foram de R$ 6.052.000,00 em média no primeiro quadrimestre de 2014 - muito acima dos recomendados R$ 3,7 milhões e 64% acima do que fora aprovado pelos Conselhos Fiscal e Deliberativo do clube. Mais: disse que uma das causas do desvio orçamentário do departamento de futebol foi o aumento que Sidnei deu a si mesmo – de R$ 42 mil para R$ 65 mil entre 2013 e 2014.

Segundo Landau, o ex-gerente promovera uma “verdadeira sangria nos cofres alvinegros” ao conceder aumentos generalizados no departamento "contrariando o que determinava o departamento financeiro". O e-mail disse também que Sidnei não tinha “qualquer histórico de sucesso no futebol profissional” e que "reconhecidamente não tinha moral alguma com jogadores". E bateu forte:

"Embora fosse clara a falta de capacidade do ex-gerente para o exercício de função tão relevante para o Botafogo, jamais poderia esperar que a menos de um ano do término deste mandato, durante o momento mais crítico da atual gestão, ele simplesmente colocasse seu cargo à disposição, sob o argumento de estar fazendo isso em benefício do Botafogo, quando todos sabem que, na verdade, ele sempre teve sua presença e autoridade contestada pelos profissionais do futebol. Lembro que na comemoração do título de 2012 o nosso técnico citou o nome de vários colaboradoes e nunca o dele"

O diretor-executivo foi mais longe: afirmou ser contra o pagamento da multa rescisória de Loureiro.

Sidnei Loureiro, em entrevista ao GloboEsporte.com: fortes críticas após sair do Botafogo (Foto: Gustavo Rotstein)

11 – A sinuca de Assumpção

O e-mail de Landau deixou Assumpção em situação difícil. Ele não podia brigar com Landau, seu grande parceiro no clube. Mas também tinha lealdade a Loureiro. O presidente resolveu sair pela tangente. Deu entrevista para a Rádio Globo dizendo que tinha, sim, demitido Loureiro – o que garantiria o pagamento da multa rescisória. Fez elogios ao trabalho do ex-gerente, mas disse que não concordava com suas críticas ao financeiro.

Meses depois, em setembro, em entrevista ao Esporte Espetacular, Maurício Assumpção diria que o departamento de futebol tinha feito um orçamento realista para o ano. Sua declaração literal.

– Sabendo dos problemas que iríamos enfrentar por conta da questão do Ato Trabalhista e das penhoras fiscais, fizemos um orçamento do futebol melhor que o de 2013. Em novembro de 2013, o orçamento do futebol, que contempla base e profissional, era de R$ 6,8 milhões. Em março de 2014 caiu para R$ 3,6 milhões. E precisávamos de um time melhor do que tinha, pois estávamos disputando a Libertadores. Sabíamos que não podia fazer isso.

Esses números de Maurício tinham um problema: eram diferentes dos reais. O departamento de futebol gastou R$ 4,8 milhões em novembro de 2013. Em março de 2014 o gasto foi de R$ 5,6 milhões. Ou seja, R$ 800 mil a mais mesmo com as saídas de Oswaldo, Seedorf, Rafael Marques e Renato. 

Maurício Assumpção: sinuca de bico após desentendimento entre Landau e Loureiro (Foto: Satiro Sodré)
12 – Gottardo

Sidnei Loureiro ficou um ano e quatro meses à frente do futebol profissional e pode botar no currículo o estadual de 2013 e a vaga na Libertadores de 2014. Para o seu lugar, Assumpção contratou Wilson Gottardo. O ex-zagueiro, capitão do time campeão brasileiro em 1995, chegou falando que os atletas tinham que esquecer os problemas financeiros.

– Em 1995, fui campeão com cinco meses de salários atrasados.

Os jogadores odiaram a declaração. Gottardo tentou convencer Jefferson a ser uma espécie de “líder positivo”, dizendo que deveria ser exemplo. Jefferson não gostou muito, mas disse que iria tentar.

Wilson Gottardo volta ao Botafogo como dirigente: declaração pega mal com os jogadores (Foto: Vitor Silva / SSPress)

13 – O sumiço dos uniformes

Mais de mil peças de uniformes desapareceram do estoque do clube. Em um áudio que circulou pelo WhatsApp, um funcionário pedia a outro para esconder uma caixa.

– O André está indo aí conferir. Esconde aquela caixa que tem as minhas camisas por favor – dizia a voz na gravação.

André, no caso, era André Silva, que levou o caso até o presidente Maurício Assumpção. Ninguém foi punido. Contra o Criciúma, o time quis usar camisas pretas, mas no almoxarifado não havia mais nenhuma delas. Isso gerou um corre-corre interno, e dois dias antes da partida uma caixa com os uniformes pretos reapareceu. Os jogadores entraram em campo com eles, que teriam sido recuperados graças a contatos com "milicianos". Um dos funcionários que "recuperou" as roupas era justamente o dono da voz da gravação que circulou no clube.

– Se ficássemos aqui mais um ano, eu comprava um apartamento – ele costumava dizer aos amigos.

Botafogo quase não consegue usar camisa preta contra o Criciúma após sumiço (Foto: Getty Imagens)

14 – O breve apoio dos cardeais

Em julho, o futebol tinha virado um deserto de dirigentes. Com a saída de Sidnei Loureiro, Chico Fonseca desapareceu. Quem passou a tocar o dia a dia foi o vice administrativo, André Silva, ao lado do recém-contratado Gottardo – que ainda tentava encontrar algum clima.

Os cofres alvinegros estavam vazios e não havia perspectiva de receita. Os atrasos já chegavam a cinco meses em imagem e três na CLT – sem falar no FGTS. O clube tentava estratégias, como recorrer ao apoio do Sindicato de Atletas. Mas este tem as suas regras próprias de pagamento. Ao receber, priorizava atletas de acordo com o salário, de cima para baixo. Isso deixou Lucas fora de um dos pagamentos – e o lateral-direito, irritado, deixou o clube via justiça.

André Silva pediu ajuda a Montenegro e ao executivo Durcésio Mello, que se preparava para se candidatar à presidência. Ambos trouxeram a promessa de pagar os salários futuros. Houve uma reunião dos cardeais com os atletas, e a promessa alegrou o ambiente. O clube engatou alguns bons resultados e se afastou do Z-4. Mas os cardeais pagaram apenas o mês de julho. Em agosto, o dinheiro já não entrou. E o clima começou a azedar de vez.

Lucas, em ação contra o Cruzeiro: lateral deixou o Botafogo após acionar Justça por salários (Foto: Agência Getty Images)

AMANHÃ: DOSSIÊ BOTAFOGO IV - Descontrole, demissões e rebaixamento

Por GloboEsporte.com Rio de Janeiro