segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Alvo de clube brasileiro, Fernandes tem apoio do Bota para vencer na vida



Elogiado por René Simões, volante de 19 anos tem multa rescisória de cerca de R$ 10 milhões e ganhou aumento para tirar família de péssimas condições de moradia




Aos 19 anos, Fernandes foi uma das revelações da pré-temporada do
Botafogo. Volante tem contrato até 2016 (Foto: Vitor Silva/SSPress)
Ao elogiar a atuação de Fernandes na vitória por 1 a 0 sobre o Boavista, René Simões definiu:

- É um menino que está virando homem.

Se o técnico, porém, souber um pouco mais da vida esportiva e pessoal de seu comandado, concluirá que ele chegou à maturidade. Até porque foi quase que obrigado a isso. O esforço do jovem de 19 anos conseguiu, por exemplo, tirar a família de uma moradia de péssimas condições.

A situação não interferiu no rendimento dentro de campo. Pelo contrário. Fernandes vem conseguindo superar as barreiras psicológicas e concentrar seus esforços para desenvolver seu futebol. Afinal, o jogador que se destacou no segundo tempo da partida do último sábado e despertou interesse de pelo menos um grande clube do Brasil - a direção promete mantê-lo.

O Botafogo é detentor de 90% dos direitos econômicos de Fernandes - os 10% restantes são do próprio jogador -, e a multa rescisória é de cerca de R$ 10 milhões para transferências a clubes nacionais. O alto valor corresponde ao salário do volante, que recebeu um aumento em 2013, quando ainda era dos juvenis, e teve a ver não somente pelo mérito esportivo. A intenção da diretoria e de seu empresário era dar uma condição melhor de vida à sua família.

Fernandes, o pai, a mãe e o irmão moravam numa comunidade pobre no bairro de Bento Ribeiro, no Rio de Janeiro. O local sequer tinha banheiro - era comunitário. A situação foi constatada após a visita da assistente social enviada pelo Botafogo. O aumento do valor salarial, consolidado em 2013, foi uma maneira encontrada por clube e seu agente para ajudar na mudança de endereço. Hoje a família habita um apartamento no bairro de Vila Valqueire.

No mesmo momento, o Botafogo contratou Sandra, mãe de Fernandes, para trabalhar como funcionária da cantina de Marechal Hermes, que então era a sede das categorias de base do clube. Hoje o local está desativado e ela tem outro emprego. Jader, o pai, é pintor.

- Quisemos aproveitar essa parceria com o Botafogo para dar ao Fernandes e a sua família uma condição de vida que nunca tiveram. Mesmo que fosse uma situação provisória. Mas é importante que ele saiba como é essa evolução para melhorar a vida como jogador e como pessoa - explicou Marcos Marinho, seu empresário.

Fernandes em ação contra o Boavista, no último sábado. Talento precoce elogiado por René Simões em sua estreia como profissional em jogos oficiais (Foto: Marcos Tristão / O Globo)
Uma das surpresas do Botafogo na pré-temporada, Fernandes atuou nos três jogos-treino e no amistoso contra o Shandong Luneng, sempre entrando no decorrer das partidas. Contra o Boavista não foi diferente. Substituiu Gegê aos 21 minutos do segundo tempo e mostrou personalidade, sendo elogiado por René Simões.

- Gostei da entrada dele. Numa conversa durante a pré-temporada, eu tinha dito a ele que certos lances separavam os homens dos meninos. Hoje depois do jogo ele veio me perguntar: “E aí, professor?” Eu respondi que ele é um menino que está virando homem - contou o técnico.

Há 10 anos no Botafogo, Fernandes sempre foi precoce. Perto de completar 20 anos, o volante já nos juvenis passou a ter um salário que estava entre os 10 maiores dos juniores. Os valores, negociados em 2013 pelo então assessor executivo Bernardo Arantes, conseguiram dar uma maior proteção ao clube contra o assédio. O atraso salarial, entretanto, deixa o Alvinegro vulnerável, mas a atual diretoria garante que vai se movimentar para evitar a perda de sua joia, que tem contrato até junho de 2016.

- Pode ter certeza de que vamos atuar com agilidade para não ocorrer em relação ao Fernandes o que já aconteceu em outras oportunidades - afirmou o vice de futebol Antônio Carlos Mantuano, referindo-se às recentes perdas de Andrey, Gabriel e Daniel, todos oriundos da base, que deixaram o Botafogo após ações na Justiça.

Por Gustavo Rotstein Rio de Janeiro/GE