quarta-feira, 17 de junho de 2015

Marcelo Mattos lamenta saída do Bota por alto salário: "Não tenho culpa"


Volante revela ter pago de seu bolso parte de tratamento de lesão em 2014 e, apesar de surpreso, diz entender motivo da diretoria para rescisão de contrato




Marcelo Mattos comemora um de seus dois gols
 pelo Botafogo, em 2014: clube agora é passado
 (Foto: Luciano Belford/SSPress)
A decisão do Botafogo de propor a rescisão de contrato machucouMarcelo Mattos. Mas ele espera tirar rapidamente o curativo para que a dor dure o menor tempo possível. Assim, torce para que até esta sexta-feira o clube responda à contraproposta de pagamento parcelado dos salários atrasados – 10 meses de direitos de imagem, seis de carteira de trabalho, referentes a 2014, além dos valores do restante de seu vínculo, válido até junho de 2016. O salário, aliás, foi o motivo alegado pela diretoria para a decisão de interromper o contrato. Os valores, segundo o Botafogo, são altos demais. Mas na primeira vez em que decidiu falar sobre o assunto, Marcelo Mattos se defendeu, ressaltando não ser o responsável pelos valores acordados quando assinou, em 2011.

Marcelo Mattos tem certeza de que as feridas deixadas pela decisão da diretoria do Botafogo vão passar. E que elas serão mais fáceis de serem curadas do que as cicatrizes que provavelmente ficarão em seu corpo para sempre como lembrança dos sete meses necessários para a recuperação de uma lesão na região do quadril, no ano passado. Por conta de um problema de cicatrização da primeira cirurgia, o volante precisou passar por uma nova intervenção, na região da virilha, pagando de seu bolso algumas despesas como médico e hospital, como ele revela GloboEsporte.com. Além disso, lembrou o apelo do técnico Vagner Mancini por sua volta na reta final do Campeonato Brasileiro do ano passado – mesmo ainda sem condições físicas – para ajudar na tentativa de fuga do rebaixamento e a frustração de não poder cumprir a meta de levar o Botafogo novamente à Primeira Divisão.

Como tem encarado essa situação de negociar uma rescisão de contrato proposta pelo Botafogo?

Entendo que o Botafogo não tem condição de continuar pagando meus vencimentos, mas espero que até sexta-feira isso se resolva, porque preciso continuar meu trabalho. Estou sem receber e as contas continuam chegando, tem meus filhos... Fico triste, chateado, porque, independentemente dos salários atrasados e da questão financeira, eu tinha o objetivo de levar o Botafogo para a Primeira Divisão e faria todo o possível para isso acontecer. E justamente no momento em que tudo caminha bem, com o time líder da Série B, fui pego de surpresa. Mas faz parte.


Depois de cinco temporadas e 178 jogos pelo Botafogo, consegue compreender os argumentos usados para rescindir seu contrato?

Médicos e hospital ficaram por minha conta, pois queria voltar rápido.
Marcelo Mattos, sobre cirurgia

Vejo isso como uma consequência do que aconteceu com o clube nos anos anteriores. O Botafogo tem optado por renovar com atletas mais novos, que podem dar retorno e fazer entrar dinheiro. Até entendo essa situação. Mas no começo do ano eu estava embutido no projeto, caso contrário, naquela época teriam falado comigo sobre rescisão. Fizemos boa campanha no Carioca, estamos bem no Brasileiro e agora vem essa surpresa. A diretoria vem fazendo um bom trabalho, mas fui pego de surpresa e tenho obrigações a cumprir. A gente conta com o salário, investe na educação dos filhos, mas acaba surgindo outra situação e tem que se adaptar a ela. Por isso preciso que a decisão aconteça rapidamente.

Como é deixar o Botafogo pelo fato de ter um salário considerado muito alto?

Não tenho culpa por receber esse salário. Fiz meu trabalho no Corinthians, fui jogar na Grécia naturalmente com um valor maior, e o Botafogo foi lá me comprar com a aprovação da diretoria. Então não tenho culpa. Enquanto estive no clube, sempre tentei fazer o melhor. A pressão é grande e passei algumas noites sem dormir pensando se certos jogos dariam certo. Também por conta do salário eu tinha uma responsabilidade a mais, como o Jefferson sempre teve. Aliás, tenho muito carinho por ele. Mesmo agora na Seleção, foi do Jefferson a única mensagem que recebi. Uma mensagem de preocupação, porque ele sabe o que eu fiz de bom para o Botafogo. E pode ter certeza de que vai ser assim onde quer que eu jogue a partir de agora. Se ainda não for, vou fazer do meu próximo clube um clube forte.

Desde que veio à tona a sua saída do Botafogo, surgiram clubes interessados? Já existem conversas?

A única coisa que disse ao meu empresário foi que não tivesse conversa com outros clubes nesse momento, pois ainda tenho contrato com o Botafogo. Tenho que focar nessa situação para resolver o mais rápido possível e, assim, continuar com minha vida.

Ao olhar para sua trajetória no Botafogo, o que mais lhe marcou?

Marcelo Mattos conviveu com lesões em sua
 passagem pelo Botafogo (Foto: Vitor Silva / SS Press)
O carinho que tenho pelo Botafogo no dia a dia e como eu trato esse clube. Pelos problemas de lesão que tive, passei a ter uma dívida com o Botafogo, um clube construído por grandes jogadores. Em 2015 eu vi a possibilidade de retribuir o que a instituição fez por mim ajudando a recolocar na Primeira Divisão. Infelizmente isso não vai acontecer. Foram cinco anos de grandes amizades, incluindo jogadores e funcionários. Fica difícil esquecer isso. Por conta das lesões não pude contribuir no momento da queda. Tentei ao máximo evitar, mas não deu. Saio com o dever cumprido, deixando o Botafogo na final do Carioca e líder da Série B. Alguns podem falar mal, mas para mim, o que fica é o que as pessoas lá de dentro viram. O que falam de fora não me incomoda.

Não ter atuado a maior parte do Brasileiro do ano passado parece ser sua grande frustração. Como foi o ter ficado fora durante sete meses por conta de uma lesão na região pubiana?

Fui até São Paulo e entrei na Justiça contra o plano de saúde para conseguir a autorização para fazer uma cirurgia durante a pausa da Copa do Mundo. Queria que a operação não demorasse tanto e, assim, eu pudesse voltar em 20 dias, como previsto. Mas por causa de um problema de cicatrização eu tive que repetir a cirurgia. Médicos e hospital ficaram por minha conta, pois queria voltar rápido.

Você conseguiu voltar quando faltavam apenas cinco jogos para o final do Brasileiro. Jogou no sacrifício?

Acho que faltavam sete rodadas quando o Vagner Mancini (técnico do Botafogo na época) me ligou dizendo que precisava de mim. No dia seguinte conversamos com os médicos e eles disseram que seria complicado eu voltar, porque eu ainda nem tinha batido na bola e tinham mexido três vezes no meu adutor, mas o treinador disse que precisava de mim em campo. Depois jogamos contra o Atlético-PR (derrota por 2 a 0). Não joguei, mas fui a Volta Redonda, vi como estava o vestiário, o ambiente e sabia que nossa situação era muito difícil, mas disse que tentaria no jogo seguinte. Fui para o clássico contra o Fluminense sem ter batido na bola e arrisquei meu ano de 2015 para jogar aquela partida. São coisas que quase ninguém viu. Acho que até agora somente o Mancini e os médicos sabiam disso. Tentei fazer o melhor pela instituição e sempre mostrei amor ao futebol. Quando fico triste pelo que está acontecendo agora, leio as declarações do Mancini depois daquele jogo contra o Fluminense, quando ele disse que seu tivesse voltado antes, a situação seria diferente. Isso mostra a minha importância.

Por Gustavo Rotstein Rio de Janeiro/GE