sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Chinês é dispensado pelo Botafogo depois de confusão em reunião


Changbao, que treinava com profissionais, "visitou" a reunião do Conselho Diretor após alegar intermediação do aluguel de uma sede do clube nas Olimpíadas





Chang Bao estava desde maio no Botafogo
 (Foto: Vitor Silva/SSPress)
A reunião do Conselho Diretor do Botafogo, na segunda-feira, já passava das nove da noite quando, de repente, uma surpresa. O jogador chinês Bing Changbao, que vinha treinando com o elenco profissional, chegou ao clube e pediu para entrar na reunião. Mais: Changbao dizia ter sido convidado pelo vice de futebol, Antonio Carlos Mantuano. Começava ali a confusão que terminaria com a renúncia do dirigente alvinegro e a dispensa do chinês, que treinava no clube.

Changbao, de 26 anos, chegara ao Botafogo em maio - tendo sido apresentado como uma espécie de "reforço comercial". Com passagens anônimas por times pequenos como Búzios, Barra Mansa, Goytacaz e Paulista de Jundiaí, Changbao foi escalado para treinar junto ao time profissional com o declarado interesse de abrir portas para possíveis investimentos chineses no clube. Filho de pais ricos, "bon vivant", sem grande talento futebolístico, Chang passou três meses treinando no Botafogo - sendo chamado de "Shangue Bom" e gerando piadinhas antes de alguns treinos, como:

- Aí, Sassá, vou te botar no time no Chang, hein!

Em junho, Changbao intermediou encontro entre Mantuano e o cônsul-geral da China no Brasil, Song Yang - que o Botafogo divulgou em seu site oficial. Na ocasião, o dirigente ouviu que a China estava disposta a ter o Botafogo como embaixador do futebol chinês no Brasil. Além das instalações do clube, a ideia era que a "parceria" atraísse patrocínios de empresas chinesas, bem como intercâmbios e amistosos com equipes do país asiático. Ironicamente, a breve saga de Changbao no clube começou a terminar justamente por causa de uma parceria com chineses.

ChangBao não chegou a atuar pelo Botafogo (Foto: Marcelo Baltar/ GloboEsporte.con)

Em julho, o clube foi procurado pela Federação Chinesa de Remo para alugar a sede do Sacopã durante as Olimpíadas. Ao saber da iniciativa, Mantuano acreditou que Changbao tinha sido intermediário do negócio (que ainda não foi fechado). E levantou o tema na reunião da segunda-feira - perguntando se o chinês não teria direito a 10% de comissão. O vice-presidente executivo, Luiz Fernando Santos, disse que o clube havia sido procurado diretamente, sem qualquer intermediário. Mantuano disse que ligaria para Chang.

Menos de uma hora depois, com a reunião em andamento e ânimos exaltados, o jogador-intermediário chinês chegou ao clube e fez menção de entrar na sala da reunião. O presidente Carlos Eduardo Pereira não aceitou a "invasão" - disse que não receberia o jogador-empresário chinês. Os ânimos já estavam exaltados por conta de outro tema: Mantuano reclamava que o clube não estava assumindo os custos judiciais de sua defesa no caso Argel.

Mantuano e Muffarej com o cônsul chinês
 (Foto: Divulgação)
Alguns integrantes do grupo político do presidente, o Mais Botafogo, já queriam remover Mantuano do cargo há algum tempo. Vários membros do MB nunca esconderam que sua presença na vice-presidência de futebol tinha sido um acordo político necessário para ganhar a eleição - por conta do trânsito do dirigente entre sócios eméritos e beneméritos.

- Sem ele a gente não ganhava a eleição. Mas não sei se ele dura seis meses - disse um membro do grupo em janeiro.

Durou oito - muito por conta da presença de Nelson Muffarej na vice-presidência geral. Muffarej era originário do grupo de Mantuano - o Botafogo Acima de Tudo - e se mostrou um aliado importante de Carlos Eduardo na gestão do clube. O Mais Botafogo temia que um rompimento com Mantuano afetasse essa relação. Mas, na reunião do Conselho Diretor, Muffarej defendeu as posições da diretoria - em especial uma que irritou muito Mantuano - a de o clube não assumir integralmente o custo de sua defesa jurídica no caso Argel (em julho, o vice de futebol foi acusado de tentar agredir o treinador do Figueirense no Engenhão após partida pela Copa do Brasil).

- O clube foi incapaz de publicar uma nota oficial dizendo o que ocorreu de fato naquele dia – disse Mantuano ao comentar sua renúncia.

Quando Changbao chegou, a discussão fervia. Mantuano teve que ser contido ao partir para cima de Muffarej. Irritadíssimo, declarou que estava deixando o cargo:

- Estou fora!

Carlos Eduardo, conhecendo o temperamento explosivo do dirigente, pediu que ele redigisse então uma carta de renúncia e assinasse.

- O Mantuano é explosivo. Se irrita e depois volta atrás. Carlos Eduardo aproveitou a chance na hora - disse uma fonte da diretoria.

Procurado pela reportagem do GloboEsporte.com, Antônio Carlos Mantuano não atendeu as ligações. O presidente Carlos Eduardo Pereira negou toda a confusão e desconversou.

- Não entra nessa do Mantuano. Ele só quer criar caso...

O demissionário vice assinou a carta e saiu cuspindo marimbondos, se dizendo traído. A carta foi rapidamente publicada no site oficial do clube. Para o grupo do Mais Botafogo a solução acabou sendo conveniente, com a exclusão de Mantuano e a permanência do vice-presidente geral. Quem acabou de mãos abanando foi Changbao - que não foi recebido, não ganhou comissão alguma e ainda foi dispensado pelo clube no dia seguinte.

Por Gustavo Rotstein e Marcelo Baltar Rio de Janeiro/GE